Sobre a televisão
 
Ética e política 1: a política concentrada na corrupção
   
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O Brasil norte-americano
   
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O afeto autoritário
   
O riso precisa ser idiota?
   
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OO

Este é um trecho de O afeto autoritário televisão, ética, democracia, que será publicado, pela Ateliê Editorial, em 2004.

 

O riso precisa ser idiota?

Dez, quinze anos atrás, o humor na TV melhor dizendo, o humor na emissora líder em audiência e em gosto, a Globo entrou em crise. Havia três formas principais de fazer rir, uma com Chico Anysio, outra com Jô Soares e a terceira que então nascia com o grupo do Casseta e Planeta, que foi fazer a TV-Pirata. Chico Anysio envelheceu, mantendo um humor assentado em tipos e estereótipos, e perdeu o destaque. Hoje seria improvável um episódio que presenciei há vinte anos, quando fui jantar na casa de importante intelectual paulista, que a certa altura se ausentou para ver Chico Anysio: ele adorava os seus tipos.

Jô Soares, embora estivesse na ribalta também há muito tempo, renovou-se. Mas no fim dos anos 80 ele estava em crise. Penso, mesmo, que foi ele quem melhor percebeu a necessidade e as dificuldades de se renovar. Seu programa de humor tinha duas vertentes principais. Uma era a da crítica política, que gerou personagens esplêndidas ao longo do infindável ocaso de nosso dinossauro, a ditadura militar. Ele criou o porta-voz esverdeado, paródia do porta-voz do general Figueiredo; o ministro Sardinha, da Agricultura ("meu negócio são números"), alusão a Delfim Neto; o paranóico, que sempre achava que o queriam enredar em posições contra o regime. Mas seu melhor papel foi o general do "tubo", um militar que passa em coma os seis anos da presidência de Figueiredo. Ao saber que o país tinha mudado, o general mandava tirar o tubo que o mantinha vivo até ouvir algo que o alegrasse, tipo ACM é ministro, Sarney é presidente etc. ("deixa o tubo!", terminava a cena, querendo dizer: nada mudou no Brasil).

A outra vertente de Jô Soares era uma comédia de costumes marcada pelo preconceito contra mulheres e gays, que seriam, elas e eles, fúteis. A soma das duas vertentes garantia para o cômico um público enorme, tanto culto quanto vulgar mas, no final dos anos 80, estava ficando impossível a coexistência entre os dois registros. É como se a crítica política resultasse na TV-Pirata, enquanto a censura à dissidência comportamental ficava com Chico Anysio. Que lugar restava a Jô Soares, nossa mais brilhante individualidade cômica, nesse quadro?

Provavelmente foi essa a razão última (mais forte que a pequena crônica das TVs) para ele sair da comédia e ingressar no talk show claro, temperando-o de graça cômica. E foram esses os anos de glória e originalidade dos Piratas. Só que também eles acabaram aderindo ao estereótipo é certo que em tom irônico, rindo do negro mas com uma piscadinha de olhos, como a dizer que sabiam que isso era errado, preconceituoso. Foi o seu jeito de agradar aos dois públicos, o vulgar e o culto (a piada para o vulgo, a piscada para o culto). De todo modo o humor Pirata decaiu, e hoje o riso televisivo tem raros momentos de inteligência. Parece que o impasse sentido por Jô Soares em tempos da Nova República, longe de se superar, apenas acentuou seu caráter implacável.

Por que isso? Concordo plenamente que na maior parte dos programas a TV é entretenimento, que exige leveza e despretensão. Nada de policiar as piadas! O inquietante, porém, é que as pessoas se descontraiam ouvindo o que há de pior no preconceito. Faz vinte e cinco anos que as novelas defendem a igualdade dos sexos mas o humor ainda passa a idéia de que as mulheres são fúteis gastadoras do dinheiro de seus maridos. Será a dramaturgia mais democrática, mais inteligente que o riso? Parece ser esse o fato, mas por que? O riso não precisa ser idiota.

(13 de agosto de 2000)