Sobre a televisão
 
Ética e política 1: a política concentrada na corrupção
   
Ética e política 2: a política concentrada na corrupção
   
Os pressupostos da assimilação da TV à propaganda
   
Dois novos poderes: Ministério Público e ONGs
   
O Brasil norte-americano
   
O país que vendeu seu nome à TV
   
O afeto autoritário
   
O riso precisa ser idiota?
   
A pornografia leve de nossos canais
   
Os telejornais segundo a ética
 

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Este é um trecho de "O poder público ausente (a televisão nas mãos do mercado)", que será publicado na íntegra em O afeto autoritário televisão, ética, democracia, pela Ateliê Editorial, em 2004.

 

Ética e política 1:
a política concentrada na corrupção

A discussão do sexo e da política na TV

Um dos eixos mais explícitos da discussão sobre a TV, no Brasil, é o do sexo. A questão moral, quando é debatida no tocante à televisão, geralmente se centra na exposição dos genitais. Atualmente, o assunto parece mais ou menos resolvido na prática: em que pesem protestos sempre recorrentes, está praticamente impossível a censura às imagens de nudez na televisão. Elas consagraram-se nos costumes, sobretudo, mas não só, no carnaval. Pode-se e mesmo deve-se questionar se a exibição da sexualidade corresponde a uma desejável emancipação dos costumes, ou antes à conversão do corpo em mercadoria em outras palavras, se quem triunfou foi Wilhelm Reich ou Hugh Hefner. Mas o fato é que quase todo o debate sobre a sexualidade na TV, melhor dizendo, quase toda a crítica à exibição do sexo na tela, se deu em termos moralistas e não nos de uma abordagem que unisse a defesa da emancipação sexual, o respeito à intimidade e a valorização do amor.

Ora, ao mesmo tempo que se super-discute o sexo, subdiscute-se a política. Muito pouco se debate, na televisão, em termos de opções políticas e sociais. Há no Brasil uma enorme valorização do enfoque moral, que no caso da sexualidade geralmente produz um discurso (mas não uma prática) moralista, e uma depreciação dos debates, relevantes para uma democracia, sobre as diferentes opções de sociedade que ante nós se colocam. Assim, por exemplo, um debate sistemático entre neoliberalismo, socialismo e terceira via raras vezes vem à luz, já que os canais de televisão geralmente defendem as posições mais próximas às do poder político e econômico.

Redução da questão moral à da ética sexual

O primeiro ponto assim a frisar é que não só a política é subordinada à moral, mas que a moralidade é reduzida à sexualidade. A crítica aos excessos televisivos se concentra na exibição do nu feminino e na referência a relações sexuais pré- ou extra-conjugais. Contudo, parece bastante difícil que a TV mude de atitude nesse tocante, de modo que aqui temos uma reivindicação moralista que provavelmente se esgotará em si mesma.

De todo modo, devemos enfatizar a necessidade de distinguir o que é emancipação sexual, enquanto direito cada vez mais reivindicado no âmbito social, e o que é abusivo como por exemplo a precoce sexualização das crianças 1 e merece ser criticado.

A emancipação sexual na TV

Há quase trinta anos a rede Globo promove o reexame das relações homem-mulher. É evidente que os movimentos feministas, por definição minoritários na sociedade, foram quem iniciou esse questionamento, já nos anos 60, mas na década seguinte a rede Globo assumiu a causa, e não a abandonou. A novela Dancing Days, de Gilberto Braga, já questionava em 1979 os papéis tradicionais dos dois sexos. Mais que isso, uma assessoria, formal ou informal (ignoro-o), desde muito tempo procurou ajudar as novelas, principal peça da dramaturgia televisiva e portanto dotada de enorme impacto sobre os costumes, a mudar estes últimos, com o intuito de reduzir o sofrimento psíquico e aumentar a felicidade dos espectadores. Penso que a proximidade de vários atores da Globo em relação ao psicanalista Eduardo Mascarenhas deva ter cumprido importante papel nesse rumo.

Lembro uma passagem de Dancing Days: o pai vivido por Cláudio Correia e Castro finalmente aceitava que o filho mais novo (Lauro Corona) não seguisse a carreira prevista para ele. Querendo encorajá-lo, o pai dizia ao menino que, mesmo que se tornasse lixeiro, procurasse ser o melhor lixeiro do mundo. Nesse momento, o irmão mais velho (Antonio Fagundes) reagia, exigindo que o pai cessasse uma pressão excessiva: que o irmão, como qualquer pessoa, fosse simplesmente o que quisesse ser, sem ter de carregar o peso do perfeccionismo paterno. O discurso era evidentemente de divã, e inovador, porque o pai dizia o lugar comum bem-pensante da época, mas sua transposição televisiva estava bem feita e atestava o empenho de romper uma moralidade tradicional. Outro empenho nesse rumo foi o de fazer homem chorar na televisão.

 

NOTAS

1 Assim, nos últimos anos, a "dança da garrafa", altamente erótica e difundida pela TV, tem sido imitada por meninas de três ou quatro anos, com beneplácito dos próprios pais e incentivo das emissoras.