Sobre a televisão
 
Ética e política 1: a política concentrada na corrupção
   
Ética e política 2: a política concentrada na corrupção
   
Os pressupostos da assimilação da TV à propaganda
   
Dois novos poderes: Ministério Público e ONGs
   
O Brasil norte-americano
   
O país que vendeu seu nome à TV
   
O afeto autoritário
   
O riso precisa ser idiota?
   
A pornografia leve de nossos canais
   
Os telejornais segundo a ética
 

OO

Este é um trecho de O afeto autoritário – televisão, ética, democracia, que será publicado, pela Ateliê Editorial, em 2004.

 

O Brasil norte-americano

Na última crônica, comentei que os Estados Unidos vêem a cultura sobretudo como mercadoria, promovendo o entretenimento, a diversão – enquanto os europeus a entendem como um direito humano fundamental, no qual é importante o papel do setor público, contribuindo para formar a cidadania e a liberdade de escolha. Hoje quero desenvolver essa diferença a propósito da TV paga, que aumentou a quantidade de programas mas nem por isso deu perfil mais pluralista à telinha.

A maioria esmagadora dos novos canais difunde o estilo norte-americano de vida. Às vezes isso chega às raias do ridículo – por exemplo, com piadas incompreensíveis, citando personagens bem conhecidas naquele país, mas que para nós nada significam, ou questões provincianas dos Estados Unidos, tratadas como se tivessem alcance universal. E isso para não falar nos erros de tradução, inúmeros.

Ouvi outro dia, num documentário sobre o filme A Montanha dos Gorilas, que na África havia muita "fita vermelha". Percebi que se referiam a "red tape", que quer dizer papelório, carimbos, em suma, burocracia. Isso lembra uma expressão que durou muito tempo nas legendas de filmes importados, que era "xispeteó". Significava algo excelente, muito bom, vindo (o que é bem curioso) de XPTO, que é uma das formas pelas quais os primeiros cristãos escreviam o nome de Cristo. O problema é que essa expressão foi corrente na gíria brasileira em 1930 e 40, mas os tradutores radicados em Hollywood a usaram até os anos 70, desligados que estavam da evolução de nossa língua.

Há, sim, o ridículo nessa transposição automática do American way of life. Vejam as avós norte-americanas. Elas geralmente aparecem com excesso de maquiagem e de jóias, mostrando-se frias ou até hostis a suas filhas e netos. Isso causa repulsa ou pelo menos chacota num país como o nosso, em que a relação da avó com o neto costuma ser muito forte, constituindo um canal de intenso prazer para ambas as partes.

Mas o problema não está no ridículo e sim no que é tentador. E o entretenimento norte-americano é cativante, até porque nos últimos cinqüenta anos ele formatou os corações e mentes, mundo afora, numa espécie de adolescência expandida. A Disneylândia e seus desdobramentos tomaram conta do imaginário mundial. (Lembram o soldado nazista do Resgate do Soldado Ryan, salvando ao vida ao gritar que adora Mickey Mouse?). Macdonald’s e sitcoms conquistaram públicos. O problema é que junto com isso vêm valores que não são discutidos, mas absorvidos acriticamente.

Inclusive alguns gestos. Já comentei que o gesto obsceno brasileiro, que consiste em arredondar o polegar e o indicador, está sendo substituído por seu parente norte-americano, o dedo médio apontado em riste. Mais que isso, toda uma substituição de formas culturais ocorre sem a percebermos. A tecnologia prevalece sobre o conteúdo, assim como (na dramaturgia televisiva) os efeitos especiais ameaçam ganhar do jogo do ator, as imagens (no telejornalismo) roubam espaço das análises, e por aí vai.

Se pelo menos tivéssemos acesso equivalente a canais de outras proveniências! Mas a BBC inglesa, a RAI italiana, a DW alemã, a NHK japonesa, a TVE espanhola, a ART árabe, todas elas passam sem legenda ou dublagem, ficando reservadas a quem domina línguas estrangeiras. Contamos nos dedos os canais não-norte-americanos que dublam e editam sua programação – basicamente, alguns da Globosat, o Eurochannel, a TV-5 da francofonia, o Films&Arts quase inglês. É pouco. A TV aberta fechou ainda mais nossa dependência cultural dos Estados Unidos.

(26 de agosto de 2001)