A cidade e as cenas- A crítica de Rousseau ao teatro, de Cláudio Boeira Garcia
   
Sade a Felicidade Libertina, de Eliane Robert Moraes
   
O Problema da Obediência em Thomas Hobbes, Thamy Pogrebinschi
   
Noites Nômades - espaço e subjetividade nas culturas jovens contem-porâneas, de Maria Isabel Mendes de Almeida e Katia Tracy
   
Discursos Descon-certados: Lincha-mentos, Punições e Direitos Humanos, de Helena Singer
 

O

Prefácio a Noites Nômades - espaço e subjetividade nas culturas jovens contem-porâneas, de Maria Isabel Mendes de Almeida e Katia Tracy. Rio de Janeiro, editora Rocco, 2003.

 

O passarinho de Godard

Dentre as inúmeras mudanças que nossa sociedade conheceu nas últimas décadas, uma das mais significativas talvez tenha sido a substituição de um eixo vertical por um horizontal, nas mais variadas relações humanas. Era vertical a compreensão da sociedade, hierarquizada; ora, ainda que nossa sociedade continue tomada por poderes os mais diversos, e em alguns países bastante sólidos, fortes, até prepotentes, o fato é que eles perderam o peso que já tiveram.

Em outras palavras, cada vez mais o poder hierárquico se revela, não bem poder, mas prepotência, não mais poder, mas força: cada dia ele perde um pouco de sua legitimidade. E com isso os pobres, embora possam continuar sendo pobres, não introjetam mais, como fizeram no passado, sua subordinação. A sociedade não a sociedade "real", se é que ela existe, mas a sociedade tal como a concebemos em nossos sonhos, em nossas ilusões, em nossos projetos foi-se tornando horizontal. As posições podem se trocar. Há sinais de distinção social, sim, mas eles ficaram mais fracos.

Há uns anos, Marcelo Coelho comentava, espantado, um anúncio oferecendo fitas para aprender inglês mas não com o acento da elite britânica, nem mesmo com o das classes dirigentes dos Estados Unidos, e sim com o dos negros norte-americanos: tornava-se padrão o que antes era exceção, norma o que fora desdenhado. A feijoada, emblema entre nós do prato dos escravos anexado pela culinária dos senhores, era uma certa exceção; parece que nas mais variadas culturas há comidas que se fazem com sobras, e que portanto representam uma cozinha dos dominados, dos pobres, mas que a partir de um certo momento se vê incrementada, refinada e apropriada pelos ricos a olla podrida, a bouillabaisse, e muitos mais; mas ainda assim a maior parte dos produtos requintados vem (ou, o que é mais importante, acreditamos que venha) dos de cima, não dos de baixo. Ora, esse quadro mudou; a norma fraca parece tornar-se forte: cada vez mais, os ricos vão a bailes funk; até um valor que sempre representou a distinção cultural e sobretudo social a fala culta perde muito de sua importância.

O que tem isso a ver com o livro que Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia Maria de Almeida Tracy nos oferecem? É que a verticalidade proíbe o nomadismo ou, melhor dizendo, é que o nômade contesta as hierarquias. Tem-se observado, mais e mais, que no meio do que existe de mais urbano desponta algo que parecia, desde muito tempo, liquidado o que lembra um filme de Godard, dos anos 1980, em que se comentava a crescente implantação de um passarinho nas metrópoles, uma avezinha que sempre vivera no campo (como sói acontecer) mas que, década após década, meticulosamente, ao longo do século XX foi ocupando as urbes européias, uma a uma. O nomadismo em cidades enormes faz lembrar o passarinho de Godard e por várias razões.

A primeira delas é que não cabe mais pensar na história, nem pensar a história, como um fio contínuo, sem retorno. Todas as lógicas que desde o século XVIII o pensamento social constituiu, para tornar a história uma disciplina científica, supuseram que ela tivesse um fio condutor. E geralmente, a esse fio, deram-se nomes de sabor positivista, variações em torno das idéias de progresso e de razão. Ora, tudo isso faliu. Que numa grande cidade se restaure o que é mais velho que o sedentarismo agrícola que, nela, renasça o nomadismo é apenas um sinal a mais de que os fios condutores deixaram de nos conduzir. Em vez do fio de Ariadne, talvez se mostre mais criativo o emaranhado.

A segunda é que também as categorias sobre as quais se forjaram as ciências sociais se tornaram duvidosas. Uma oposição básica, de teor weberiano, recortou igualmente usando várias denominações o emocional e o racional: e mais uma vez, aqui, o nomadismo soou arcaico. O nomadismo podia ser tentador: ao longo de todo o último período colonialista aquele que começou depois da independência da América Latina, com a exploração intensa da África e da Ásia foram muitos os europeus que se deixaram fascinar pelo deserto e por seus migrantes, Lawrence se tornando da Arábia, oficiais franceses sonhando com o Saara, gente branquela deslumbrada por tuaregues. Mas esse fascínio soava como um último grito diante de culturas moribundas, como uma compensação tardia por uma morte anunciada. O que surpreende, e constitui novidade,é que o nomadismo saia da agonia para reviver, que deixe de constituir exceção para se tornar praxe ou melhor, talvez se possa dizer: o que surpreende é que a exceção se torne práxis.

E a terceira razão, ou conseqüência, é que tenha falido uma grande referência vertical, a do pai freudiano. Um dos maiores pensadores do século XX, Freud foi capaz de mostrar conflito na relação pai-filho, que antes era entendida como devendo ser de amor puro e desinteressado; ele assim deu o remate a um processo que principiou talvez com Maquiavel, exigindo que entendêssemos as coisas como são, e não como deveriam ser. Esse, o grande feito de Freud. Foi muito emancipador que não precisássemos mais esconder nossos maus sentimentos. Mas, nas últimas décadas, o que têm procurado os melhores psicanalistas se não libertar as descobertas freudianas (a começar pelo inconsciente) da hipoteca vitoriana, do pai autoritário, da família nuclear? E isso porque essas figuras cada vez significam menos, em nossa sociedade. As autoras terminam o capítulo V lembrando, na esteira de Guy Debord, que "os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais", mas nem sempre foi assim; nem sempre foi tão assim quanto hoje em dia; porque cada vez mais as relações horizontais com os pares e com os tempos atuais prevalecem sobre as ligações verticais com as origens, com os antecedentes, com o pai, a mãe e a história.

Viver isto não é fácil, e entendo que traga desconforto a muitos e desesperança a alguns. Como Maria Isabel e Kátia lidaram, entre outras coisas, com a Internet, também recorrerei a um exemplo dela. Quase todo mês recebo algum e-mail, dirigido coletivamente, criticando os tempos atuais. Um deles, curiosa coincidência, que li pela mesma data em que recebi estes originais, se intitulava "Tipo assim", que é exatamente o nome de um subtítulo do presente livro. E tratava, também, dos jovens do Rio de Janeiro e de sua linguagem, digamos, tipo assim. Mas esse e-mail e os outros de que falo apontam sempre, na juventude ou nos tempos atuais, uma carência ou declínio, se comparados a épocas que teriam sido melhores. Ou é porque nos programas de televisão há neurônios de menos e hormônios de mais, ou é porque os mais moços já nem sabem o que é máquina de escrever ou disco vinil, ou é que surge violência em excesso, ou ainda sexo em exagero e sem amor, ou... Podem até, esses meus conhecidos (ou, mais freqüentemente, desconhecidos) de meia idade, ter razão na crítica que fazem1. De todo modo, é curioso que pela Internet não passeie só o nomadismo, mas também circule o medo aos tempos presentes, a nostalgia de um passado mitificado, a sêde do sedentarismo, da cadeira, talvez da cátedra. É curioso que um meio tão nômade, porque corta as origens e nos emancipa das raízes, também sirva para proclamar a necessidade ou o desejo de regras. Mas vá lá; que a forma contrarie o conteúdo, que a mídia conteste o discurso, ocorre.

O problema, mesmo, é que esses e-mails condenam rápido demais. Algumas de suas críticas, aliás, logo se revelam simplesmente erradas: foi o caso, há poucos anos, de uma telenovela que começava com muitas mortes e por isso foi acusada de banalizar o mal até que se percebeu que o autor dela pretendia, justamente, criticar a violência em nossa sociedade. A questão é, na verdade, dupla. Primeiro, surge uma espécie de condenação ou indignação automática, quase um kit que se aciona imediatamente. Censurar o que se faz hoje se torna então uma reação quase behaviorista de defesa de uma geração mais velha diante do novo. Formalmente, não há maior diferença entre essa condenação das novidades e as que as gerações anteriores fizeram; a diferença, claro, está nas justificativas, porque antes se criticava o novo em nome do conservadorismo religioso e moral, e hoje isso se faz em nome da cultura, do marxismo ou mesmo da escola de Frankfurt. A diferença não é desprezível, mas a semelhança tampouco deve ser ignorada. E com isso, segundo ponto, se desconhece o que realmente está acontecendo, aqui e agora. Podemos ser severos com os tempos presentes, ou com quaisquer outros, mas devemos pelo menos entendê-los.

E é esse, para terminar, o mérito deste livro. Tratando de fenômenos cuja compreensão não é fácil e que é dificultada, em vez de ser facilitada, por sua extrema visibilidade, por sua ressonância quase on line na mídia as autoras em nenhum momento vestem a capa moralista. Seria muito fácil descrever tudo o que mostram, do ficar a uma nova versão da língua portuguesa, mediante os dispositivos da carência: os jovens não amam, não conferem duração a seus namoros, não constroem frases com sujeito e predicado; seria fácil, mas não permitiria entender este mundo que elas apresentam e analisam. Não há conhecimento sem uma certa neutralidade axiológica, sem uma certa suspensão dos valores e em especial dos preconceitos. Um novo mundo está diante de nós, e não sabemos em que dará; lembro que Foucault dizia, quando Deleuze lançou, com Guattari, o Anti-Édipo, que esse livro se destinava a quem na época era criança. Uma nova sensibilidade surgia no horizonte, perceberam os dois autores e esse leitor. É dessa sensibilidade em mudança que o presente livro trata.

Sete Praias, fevereiro de 2003.

 

NOTA

1 O engraçado é que alguns desses e-mails são assinados por identidades fictícias. Recebi um deles, condenando a banalização do sexo na TV, que era assinado por um professor da USP. Procurei por ele no site da Universidade, e não existia.
Não se trata, aqui, de voltar o dispositivo moralista contra alguém que o utilizou, de desqualificar um discurso porque seria mentiroso: mas de mostrar que mesmo o crítico das máscaras ou da inverdade enverga um disfarce.