A cidade e as cenas- A crítica de Rousseau ao teatro, de Cláudio Boeira Garcia
   
Sade a Felicidade Libertina, de Eliane Robert Moraes
   
O Problema da Obediência em Thomas Hobbes, Thamy Pogrebinschi
   
Noites Nômades - espaço e subjetividade nas culturas jovens contem-porâneas, de Maria Isabel Mendes de Almeida e Katia Tracy
   
Discursos Descon-certados: Lincha-mentos, Punições e Direitos Humanos, de Helena Singer
 

O

Prefácio a A cidade e as cenas- A crítica de Rousseau ao teatro, de Cláudio Boeira Garcia, Ijuí: Editora da UNIJUI, 1999.

 

Prefácio

A principal qualidade desta tese, que ora se converte em livro, está numa distinção que pode parecer simples, mas é extraordinariamente eficaz na leitura de Rousseau. Cláudio Boeira Garcia distingue, criteriosamente, desigualdade e diferença. Toda a obra de Rousseau tem, como um de seus fios condutores, a crítica à desigualdade. Quando o filósofo esposa a causa dos simples, dos inocentes, daqueles que se colocam num grau zero da cultura e da civilização (e é esse grau zero que ele chama de "natureza" e ao qual atribui algo que oscila entre uma panacéia para resolver todos os males de que sofremos e um metro para compreendê-los em seus momentos, digamos, otimistas, acreditando que dê para curar o homem de seu mal, embora com maior freqüência considere que tudo o que podemos é minorar-lhe a infelicidade), repito, quando o filósofo se põe na resoluta defesa da natureza contra a desnaturação, do grau (e do grau zero) contra a degradação, o que ele faz é criticar a desigualdade. Talvez nenhum filósofo, salvo Tomás Morus, se tenha empenhado tanto, antes de Rousseau, em censurar os danos que produz a desigualdade.

Mas a crítica à desigualdade jamais se efetua em nome de um padrão único, de uma norma a clonar os seres. Ao contrário: se Rousseau não mede sua condenação à desigualdade, tampouco regateia a simpatia pela diferença. A desigualdade está presa à propriedade privada, ao engano, à exploração do homem pelo homem, que sempre procede de uma esperteza inicial, de uma deslealdade (o primeiro espertalhão que disse isto é meu e encontrou gente simples o bastante para dar-lhe crédito..., como está dito no Discurso sobre a desigualdade). Já a diferença significa o espaço próprio de cada um, a identidade não achatada, a recusa de um mundo degradado pela propriedade e pela aparência. Assim, como se vê, a busca do grau ou, como acima dizia, de um grau zero, de modo algum significa uma padronização, uma estandardização dos humanos em geral. O grau zero, ou seja, a destituição de tudo o que é factício, constitui justamente a possibilidade de aproximar cada um do que é, de por isso mesmo acentuar a diferença. Por isso exalta nosso filósofo as diferenças nacionais, e mostra enorme prazer em redigir projetos para esse fim do mundo que é a Córsega disputada pelos franceses, ou a Polônia retalhada pela cobiça das potências da Europa Oriental: os menores, os perseguidos despertam sua simpatia. E é essa a diferença que conta.

Talvez isto nos permita divagar um pouco sobre a atualidade de Rousseau. Sabemos que o estudo dos filósofos requer, sempre, especial atenção ao que eles efetivamente disseram, e que projetar neles nossas idéias, teimas e tiques não é a melhor maneira de nos expormos ao que, por parte deles, possa causar-nos impacto, àquilo que nos haverá de revolucionar. Mas, feita esta importante ressalva, notamos que certos pensadores se revestem de surpreendente atualidade: entre eles, Rousseau. A crítica que ele efetua à cultura e à civilização pode muitas vezes servir, com modestas mudanças, a um discurso de nossos dias preocupado com a indústria cultural, ou com a estandardização das condutas, ou com o controle das consciências e dos corações. E é neste ponto que, criticando as cidades enquanto palco, pela representação deformadora que nelas se dá, Rousseau elabora uma defesa da diferença como arma política. A diferença não é mera porta de entrada para um quadro, meio cartesiano, do mundo, de algum theatrum mundi que permitiria expor uma taxinomia do social e do político. Ela não se apresenta como neutra. Não há quadro neutro das diferenças. Defender a diferença é negar toda e qualquer neutralidade. É tomar partido. E o partido que as diferenças apontam é o dos de baixo, dos oprimidos não por acaso, corsos e polacos, selvagens e inocentes.

Finalmente, é difícil tratar deste trabalho sem falar em seu autor, e difícil já porque ao se comentar Rousseau não é fácil, nem desejável, esquivar um tom pessoal. Cláudio não se limitou a colocar o melhor de si neste trabalho, vivendo-o, entusiasmando-se, sofrendo também por ele; eu diria mais: Cláudio, compositor, músico, cantor, deve ter visto nessa apologia da diferença contra a desigualdade uma preocupação aparentada com a sua, desde, pelo menos, o tempo em que foi um dos Tapes, do conjunto musical que tanto realizou por uma cultura de resistência à ditadura, no Rio Grande do Sul dos anos 70. Afirmar a diferença tem tudo a ver com proclamar o lugar que é o da cultura. A diferença, entre os oprimidos, depende essencialmente de se afirmar sua cultura. Isto significa, por sua vez, duas coisas: por um lado, recuperar e destacar o que é cultura própria, desde hábitos até canções; por outro, enunciar o desejo e o direito de se aprimorar conhecendo o que não recebemos como nosso, aprendendo longe de nós o que pode expandir nossa consciência, nossa identidade. A primeira destas coisas tem muito a ver com Rousseau. A segunda, se não é do filósofo de Genebra, é muito de Cláudio, por sua abertura ao diálogo, sua disposição de escutar. Ninguém fala ou canta bem se não souber ouvir. E afirmar a diferença não é confinar-se: é expandir-se, é fazer seu o mundo.

Sete Praias, novembro de 1998.