Nova York, o metrô e a psicanálise
   
   
 
   
 

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Trecho de A Universidade e a Vida Atual, Rio de Janeiro: Campus, 2003

 

Nova York, o metrô e a psicanálise

Veja-se Manhattan. Toda a parte propriamente moderna da ilha está quadriculada por ruas, que a recortam no sentido leste-oeste, e avenidas, que a percorrem de sul a norte. Ruas e avenidas são numeradas, estas em números ordinais, aquelas em cardinais. Contudo, a parte mais antiga, no sul da ilha, marcando a ocupação inicial da mesma que terminava na Rua da Paliçada ou, na língua dos nativos atuais, Wall Street , não segue essa divisão quadriculada. O antigo assim escapa ao empreendimento de pôr ordem no mundo, característico dos Estados Unidos, em que é predominante ruas e avenidas se numerarem, serem retas e perpendiculares. É até curioso que esse antigo espaço irregular sirva hoje de sede ao capital, à especulação, como se quisesse, por um lado, contrastar com a ordem que impõem os senhores financeiros do mundo, por outro, ilustrar metaforicamente a desordem, o caos dos negócios.

Vamos a outro ponto.

Se quisermos percorrer Nova York, que é como os não-residentes chamam essa comprida Manhattan, iremos de ônibus, que seguem itinerários simplicíssimos (ao longo das avenidas num eixo vertical, ou cortando a ilha horizontalmente nas ruas mais largas), de imediata e fácil decifração ou de metrô. E aqui está o problema: embora haja uma lógica nos itinerários das linhas de metrô, esta é bastante misteriosa. Umas linhas têm por nome letras, outras, números; a mesma linha inclui trens expressos e locais, e estes podem alternar conforme as horas; em suma: ao contrário do metrô de Paris, e dos de quase todos os lugares do mundo, cuja lógica rapidamente se compreende, escancarando-se no mapa, em Manhattan raras pessoas explicarão a você a lógica geral do funcionamento dos transportes subterrâneos. O que lhe poderão dizer, e dirão, é apenas que linhas e itinerários você deve tomar para chegar a um lugar que elas freqüentam.

Disso, poderíamos retirar uma lição interessante sobre como o capitalismo, em sua sede máxima, funciona confinando cada um em seu trajeto individual, barrando-lhe o acesso mesmo apenas mental (apenas? o mental pode ser apenas?) a outros trajetos, aos caminhos e vias dos outros, que é o que poderíamos chamar de lógica de funcionamento geral do sistema, ou, se quisermos retomar a grandiloqüência do fim da Idade Média, de "máquina do mundo".

Mas este ponto não me contenta como explicação, embora o ache correto. Há que acrescentar outro elemento: o metrô percorre os subsolos da cidade. O metrô, lá onde ele mais passageiros pega, lá onde ele mais circula, lá onde ele concentra sua necessidade, está debaixo da terra. Seu lugar é o ínfero, o inferno dos gregos, ou o que desde Freud chamamos ora de inconsciente, ora de id. Se o ego nova-iorquino está nas ruas e avenidas modernas, que quadriculam a cidade como um planejamento bem feito para quem está na superfície das coisas, o seu id está num metrô que funciona, sim, que está mais limpo que antigamente, que recuperou o policiamento, mas cujos trajetos não exibem a mesma luminosidade, a mesma evidência da luz do sol, e, sobretudo, cujas conexões e horários se demora a compreender, e é quase impossível ou pelo menos raríssimo entender no seu conjunto.