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Ao leitor sem medo
Hobbes escrevendo contra o seu tempo
 
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Estes são trechos do primeiro capítulo, "O gêmeo do medo", de minha tese de doutoramento sobre o filósofo inglês Thomas Hobbes, defendida em 1984 e publicada no mesmo ano pela editora Brasiliense. Depois de esgotada por vários anos, foi reimpressa em 1999, numa edição acrescida de apêndices, pela Editora da UFMG.
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Ao leitor sem medo
Hobbes escrevendo contra o seu tempo

Comecemos pelas imagens feitas. Existiu na Inglaterra um grande medo de 1588: a nação protestante aguardando a invasão espanhola, as povoações ribeirinhas espreitando o desembarque da armada que se temia invencível. Não faltaram alarmes falsos: especialmente na finisterra inglesa, a Cornualha; num desses pânicos, nasceu Thomas Hobbes, de parto prematuro "minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo", como recordará, autobiógrafo, daí a noventa anos.

O medo, gêmeo de um pensador, marcando-o desde o nascimento, enlaçado com ele feito herança ou gene, como seu direito ou natureza; a vida e obra de Hobbes são pontuadas por esta paixão. Com orgulho, na defesa de sua reputação contra o dr. Wallis, o filósofo revela que em 1640, ao ser instalado um Parlamento hostil ao governo autoritário do rei, foi ele "o primeiro de todos os que fugiram"; e, onze anos depois, receando que o Leviathan que publicara Ihe valesse a morte nas mãos dos realistas com ele exilados na França, "vieram[-lhe] à mente Dorislaus e Ascham" e retornou à Inglaterra. Mais tarde, escreveu que nenhuma lei vigente permitia castigar hereges: temia talvez que os bispos que proibiam o seu livro o mandassem à fogueira, ou pelo menos o tentassem punir por essas teses em religião.

A imagem do filósofo medroso teve, tem, uma tradição. Thomas de Quincey, no seu Do Assassinato Considerado como uma das Belas-Artes (capítulo de 1827), zombeteiramente refaz a história da filosofia moderna seguindo o tema, já por si hobbesiano, da morte violenta: foram assassinados Espinosa e Malebranche, foi assassino Berkeley, ameaçado de morte Des Cartes, e Locke era desinteressante a ponto de ninguém cogitar matá-lo; classifica como "medroso" só a Hobbes, tantas associações cometia sua imaginação fértil: certa vez acabava de banhar-se e aguardava o jantar, quando ouviu uma gritaria e recordando que "Sextus Roscius fora assassinado depois de cear perto dos Balneae Palatinae" "perturbou-se".

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Toda leitura é recorte; talvez a qualidade, ou simplesmente a data, de uma obra esteja justamente em não ser possível mais que recortá-la, em não se poder abrangê-la na integridade que nem sabemos se um dia ela teve ; como propõe Borges na "Busca de Averróis". Se uma aventura estruturalista, a de Guéroult, tentou produzir leituras definitivas e intrínsecas das obras filosóficas, a que preço foi: destruir suas condições de produção, a perversão de sua leitura, as tensões do texto e da história, e recalcar imagens e figuras sob o conceito. Contudo, isso posto, vale notar que as imagens mais correntes acerca de Hobbes resultam da eleição de alguns temas-chave o medo, a guerra de todos, o Estado todo-poderoso à custa do obscurecimento de outros a esperança, o poder da lei: humoristas, teólogos, panfletários fazem, de Hobbes, uma charge. Será reação irritada às teses sobre o homem e a política ou será, também, sinal da força e sedução das imagens que ele propõe?

Em nossos dias, algumas frases de Barthes confessam-no seduzido por Hobbes: teria sido ele o único dos filósofos a levar em conta o medo, este desdenhado de toda a filosofia, e assim fornece ao Prazer do Texto saborosa epígrafe: "O medo foi a única paixão da minha vida." Inversão de valores: não mais o anedotário do filósofo fujão, terrorista, escandaloso; mas alicerçar o seu pensamento numa paixão, a mais vergonhosa porém a rigor a que melhor expressa o pathos, a passividade humana: a paixão por excelência, o medo. Por que não entendermos as filosofias como obras de arte, cada uma delas prismando o mundo a partir de uma faceta, que pode ser uma paixão, um sentimento, uma prática? Dos Caracteres de algum moralista do século XVII extrairíamos os pensamentos possíveis, ou os enraizaríamos naqueles: sonho que não está remoto de alguma frase de Lévi-Strauss nos Tristes Trópicos.

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Mas esta leitura, enquanto faz coincidirem o medo e a filosofia hobbesiana, assenta num recorte excessivo. Na introdução ao Leviathan, o apelo ao leitor cita duas paixões: "esperar, temer". Por que seria o medo déspota entre as paixões? Retornemos à autobiografia: o que nos faz supor que o irmão gêmeo do medo seja o medo? Irmandade não é igualdade, nem são univitelinos todos os gêmeos. Escrevendo em 1672 a sua autobiografia, Hobbes certamente conhecia um dos poemas de John Donne, dedicado "ao sr. T. W.": na bela tradução de Eugênio Gardinalli Filho:

De esp'rança outra vez prenhe e seu par gêmeo, o medo,
Muito indaguei de ti, como e onde estavas, e do
Meu mesmo anseio de sabê-lo a que assim cedo

em que o poeta laureado retoma velho topos da cultura clássica, de que também se nutriu o filósofo, a oposição-proximidade de medo e esperança. Nascer gêmeo do medo é dizer-se portador da esperança. Discrição do filósofo, que nomeia o irmão e cala o próprio nome; louvor dos discípulos que, para escândalo de Anthony à Wood, entusiasmados com o nascimento de Hobbes numa Sexta-feira santa, proclamavam que, "assim como Cristo nosso Salvador deixou o mundo naquele dia para salvar os homens do mundo, também outro salvador veio ao mundo naquele dia para salvá-los". A esperança hobbesiana, na voz de alguns "hobbistas", facilmente se converte em promessa de salvação, messiânica. E, na obra do filósofo, é constante a junção de esperança e medo: assim, listando as paixões que nos inclinam à paz, ao medo da morte logo acrescenta ele o "desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida cômoda; e uma esperança de as conseguirem através da sua [= dos homens] indústria" (Leviathan, XIII, p.188). Se o medo induz o homem a afastar-se da guerra natural, a esperança posta no trabalho leva-o a buscar o Estado que Ihe garanta vida e conforto. Somam-se a negação da guerra e a afirmação da paz. Também, no capítulo VI do Leviathan, o medo adiciona-se à esperança no processo da deliberação: esta é "a soma completa de desejos, aversões, esperanças e medos, continuada até que a coisa se faça ou então se pense impossível" (p.127). É a contradição das paixões que move o homem, que o faz viver; limitado a uma só, talvez ele desconhecesse o movimento; ao desesperado, o mero medo mata. Pode-se reduzir a pares a multiplicidade das paixões: medo e esperança, aversão e desejo ou, em termos físicos, repulsão e atração. Mas não é possível escutar a filosofia hobbesiana pela nota só do medo, que não existe sem o contraponto da esperança. Sem esta, como entenderíamos o elevado conceito de Hobbes acerca de sua obra ("a filosofia política não é mais antiga que meu livro Do Cidadão" diz nos English Works, v.I, p.ix), a sua constante promessa de paz, vida e progresso aos homens, a concepção talvez "messiânica" que tem do seu filosofar?