As duas éticas ou A ação possível
   
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O Brasil e a filosofia política
   
 

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Há uma etiqueta democrática?

 

         Tempos atrás, escrevi um livrinho chamado A etiqueta no Antigo Regime, que já teve três edições [1]. Estava redigindo minha tese e notei que tinha reunido todo um material sobre as boas maneiras, que não ia usar no trabalho, por isso achei que valeria a pena publicá-lo em separado, na coleção “Tudo é História”, criada por Caio Graco Prado na editora Brasiliense.

         É um livro de história, mas é claro que o título me levou a receber alguns convites curiosos: programas de rádio me telefonando para saber como se serve à mesa. Mas a convicção principal do livro é que a etiqueta, criação do final da Idade Média e do começo da modernidade, une duas idéias importantes.  

A primeira é a dos bons modos ou boas maneiras. .Esquecemos, hoje, como foi difícil superar os modos vulgares ou rústicos (a palavra vem do latim “rus”, campo), adquirindo uma certa cortesia (a palavra vem de “corte”), urbanidade (vem de “urbs”, grande cidade) ou civilidade (vem de “cives”, cidadão ou morador da cidade).

Por exemplo, o filósofo Erasmo escreve um livro inteiro, quinhentos anos atrás, para explicar que não devemos cuspir à mesa nem na mesa, nem beber a sopa direto da sopeira, nem colocar as botas em cima da mesa... Soaria estranho fazer isso hoje, mas houve um tempo em que os nobres precisaram ser educados para melhorar seus modos.

Portanto, a primeira idéia é de respeito ao outro. Os bons modos mostram a nosso próximo que temos estima por ele: se escarramos na sua frente, enfiamos o dedo no nariz ou metemos a mão na travessa de comida, nós o desrespeitamos. Então, o certo é tomar certos cuidados, que provam nossa consideração por ele. É claro que isso pode ir longe demais, e de certa forma o século 20 corrigiu os excessos da etiqueta.

A segunda idéia é a da hierarquia entre as pessoas. Os bons modos podem ser também um meio de reforçar a desigualdade social. Trato de maneira diferente meu superior e meu inferior.

A rainha Maria Antonieta, da França, era excelente nisso. Conseguia, encontrando um grupo de pessoas, saudar cada uma de um jeito diferente – digamos, tocava com o dedo o chapéu para cumprimentar a menos importante, aí se virava para a segunda e retirava levemente o chapéu da cabeça, diante da terceira tirava-o um pouco mais e inclinava o corpo discretamente para a frente para mostrar maior respeito pela quarta pessoa.

Sua camareira, Mme. Campan, que escreveu Memórias que foram um certo sucesso de livraria no século 19, considerava essa a maior qualidade da rainha...

A etiqueta teve, então, em sociedades altamente hierarquizadas, dois sentidos. O primeiro, repito, era o do respeito ao outro. Mas este sentido indica uma certa igualdade. E o segundo aponta para a desigualdade. Por isso, a etiqueta não é uma coisa simples. Não é só igualdade, não é só desigualdade. Há uma batalha política em torno da etiqueta. Ela é de esquerda ou de direita? Perguntar assim é quase cômico, mas faz um certo sentido.

Tomemos um manual de etiqueta. Quando eu era criança, li Marcelino de Carvalho, que era o “papa da etiqueta”. Naquela época, existia em São Paulo um personagem chamado “quatrocentão”. A cidade completou quatrocentos anos em 1954 e nas décadas seguintes os descendentes dos primeiros povoadores se gabavam, diante dos imigrantes italianos e depois orientais, que tinham dinheiro mas não ocupavam as colunas sociais, de serem melhores que eles.

Marcelino de Carvalho fazia a etiqueta dos quatrocentões. Lembro que estranhei muito as regras que ele ditava: por exemplo, o luto, que devia ser utilizado por um longo tempo. Mas ninguém, que eu conhecia, usava mais roupa preta em sinal de luto! Saímos do luto fechado – só preto, em todas as roupas, durante meses ou anos – para a idéia do “pretinho básico”, a roupa elegante que serve em toda situação.

E o mais estranho eram as regras para como tratar um príncipe ou o papa. Eu achava muito improvável um dia me sentar à mesma mesa que um príncipe. E sabia que o papa não viajava (foi Paulo VI quem começou, em meados dos anos 60, a sair da Itália). A chance de me encontrar com Sua Santidade me parecia inexistente, ainda mais em São Paulo. O manual de etiqueta me parecia uma peça de ficção.

Mas digo tudo isso para quê? É que me perguntaram se etiqueta tem a ver com ética. De fato, alguns a chamam de “small morals”, pequena ética, donde etiqueta. É possível. Mas em francês, pelo menos, a primeira ocorrência de etiqueta no sentido de bons modos vem de um rótulo (ou etiqueta) que se colocava, nos tribunais, para indicar o conteúdo dos sacos que guardavam processos penais ou civis.

E daí veio a idéia de que etiqueta é um rótulo. É um modo de rotular as pessoas. Por exemplo, num lugar público eu avisto uma pessoa que não conheço. Mas, pelo modo como a tratam, ou então pelo modo como ela se exibe, tenho noção de sua importância. É o seu rótulo. E por isso vou tratá-la com atenção maior ou menor.

A etiqueta tem a ver então com as aparências. Dá para entender por que tanta gente se veste com cuidado, apura os gestos, enfim, joga com as aparências para impressionar os outros. Nas antigas monarquias, era até proibido o plebeu usar certas roupas, que fariam os outros pensarem que ele fosse nobre. Mas essas proibições nunca deram certo.

No Brasil, ficou famosa uma novela do final dos anos 60 – do momento exato em que a ditadura dava o golpe conhecido como “Ato 5” – que foi “Beto Rockefeller”, um pobre que freqüentava a alta sociedade paulista e se fazia passar por rico. A personagem foi tão forte que ainda hoje o ator que a fez, Luis Gustavo, é conhecido por esse papel – e embora ninguém, com menos de quarenta anos, tenha visto essa novela. Eram as aparências que levavam os outros a aceitá-lo como membro da “alta”.

Essa seria a etiqueta, digamos, de direita: dou mais respeito a quem usa terno (e por isso as igrejas evangélicas, dando aos mais pobres noção do seu próprio valor, difundem o uso do terno e gravata entre os seus fiéis), a quem tem dinheiro, a quem se exibe.

Haverá uma etiqueta “de esquerda”? O termo pode soar exagerado, mas se pensarmos na outra idéia de etiqueta – não a da hierarquia, mas a do respeito –, faz sentido dizer que haja uma etiqueta democrática. É a de quem recusa ser superior ao outro. Cedo a vez a ele. Peço licença, se quero fumar na frente de um estranho, e aceito a negativa.

Conhecemos a imagem do militante de esquerda sujo, fumando o tempo todo, sem bons modos. Mas ela é uma mentira e uma raridade. A maior parte dos militantes que conheço são educados, respeitosos. Podem não conhecer certas regras (a colocação das facas), mas essa só é a essência da etiqueta conservadora, “de direita”, hierárquica. Há, sim, uma etiqueta democrática – e ela não está nas regras, mas num valor básico: mostrar ao outro que temos respeito por ele, que não nos sentimos superiores, que acreditamos no valor e na igualdade de todos. Quando cedo a vez ao outro, é isso o que estou dizendo: uma lição de igualdade.

Só que há um “pulo do gato” em toda etiqueta, mas disso vou falar na semana que vem.

 

[1] Está-se esgotando a quarta edição, pela Moderna, e vai sair uma quinta, pela Ateliê.