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Entrevista ao (Universidade de Santa Cruz do Sul).

 

Entrevista ao Jornal da UNISC

- Que ações políticas levaram um país tão rico quanto o Brasil a ser o que apresenta a pior distribuição de renda?

O interessante na sua pergunta é que ela não considera natural a desigualdade, mas supõe que a nossa péssima distribuição de renda resulta de ações humanas, de uma estratégia deliberada. Geralmente é o contrário que se diz, como se a ação fosse necessária para superar a desigualdade, mas essa decorresse de um movimento natural das coisas. Ora, o Brasil se construiu sobre o descarte das pessoas tornadas inúteis: o índio, depois que se optou pela escravidão africana, o negro, depois que se escolheu o trabalho migrante europeu, o pobre, sempre que dispensável. Estamos agora num novo descarte, que é o da mão de obra não especializada, as pessoas, como disse um ministro do atual governo, com déficit de empregabilidade. O importante é termos em mente que nossos males sociais são essencialmente o efeito de políticas voltadas, justamente, para uma apropriação muito desigual de nossas riquezas.

- Como a democracia pode ser analisada a luz de tamanha exclusão social?

Conseguimos algo muito importante no Brasil, que é uma razoável consolidação das instituições políticas democráticas. Nesse ponto, o atual presidente, Fernando Henrique Cardoso, merece elogios. Agora mesmo, recebeu os candidatos à sua sucessão. Porém, o problema é que não chegamos a uma democracia social, que só existirá quando – pelo menos – não houver mais miséria. As democracias que funcionam podem ter desigualdade social e até uma pobreza digna, mas a miséria é incompatível com o respeito aos direitos humanos, que é uma característica central do regime democrático.

- Que outras formas de decisão e definição de rumos existem para os brasileiros além do voto?

É importante que as pessoas participem da vida política, o que significa não se contentarem com ir, uma vez cada dois anos, votar. Participar é: atuar em movimentos de defesa de interesses e direitos da categoria profissional, do bairro, da ecologia, das mulheres, negros ou outras formas de associação. Mas a participação pode ter também formas mais simples, como reagir a um ato de prepotência ou reclamar. O mínimo a fazer, e que já é importante, consiste em protestar junto ao fornecedor quando o produto comprado é de má qualidade, em escrever ao vereador, deputado ou senador para cobrar deles atitudes, em mandar cartas a jornais expressando sua opinião. Pelo menos, isso.

- O que leva as pessoas a não terem interesse pela política?

Essencialmente, é o fato de que temos uma educação política bastante fraca em nosso país. Disso decorre que as pessoas esperem, muitas vezes, que seus problemas sejam resolvidos de cima para baixo, e não pela ação delas próprias. O problema é que aqui não há como aceitar o paternalismo. Enquanto as pessoas não tomam em suas próprias mãos a defesa de seus direitos, interesses e mesmo desejos, o fato de que outras – mais educadas, mais politizadas – chamem para si esse papel não resolve o problema. Porque as mantém tuteladas. O único jeito de mudar isso é sacudir a tutela, mas para tanto é preciso que a queixa venha, mesmo, de baixo.

- Porque ainda hoje as pessoas têm medo de assumirem suas posições políticas?

Não estamos acostumados a algo que existe nos países democráticos, que é uma relação de certa causa e efeito entre agir politicamente e conseguir êxito. Não que toda greve ou manifestação, na Europa, resulte em sucesso. Mas muitas vezes isso sucede. Aqui temos pouca experiência, e portanto pouca crença, nessa direção. E soma-se a isso que, por sermos um país dependente economicamente, a margem de manobra nossa é limitada.

- Qual é a responsabilidade das elites políticas que irão assumir em 2003 em relação a soberania do país, citando por exemplo, a Amazônia e a adesão à Alca?

A Alca, ao que tudo indica, é um perigo para o país, nos termos em que está sendo negociada. Escancararemos nossa economia para os EUA, com muito pouco em troca. Quanto à Amazônia, é uma região que precisa ser valorizada nos novos termos que marcam o pensamento de nosso tempo. Até um tempo atrás, a economia se pensava sobretudo em termos materiais, por exemplo, as matérias-primas, e a Amazônia seria um estoque de árvores, minérios e água. Hoje, o que conta nela é sobretudo a biodiversidade, inclusive humana. Para nós e para ela, isso é ótimo, porque permite um desenvolvimento não predatório. Aliás, esse deverá até ser mais rentável do que o desenvolvimento tradicional e bastante predatório.

- Até que ponto o progresso sustentável compete as elites políticas?

Nenhuma questão política deve ficar apenas nas mãos das elites. Enquanto isso acontecer, elas farão o que quiserem, e não por maldade, mas simplesmente porque o povo só terá voz na medida em que ele se fizer ouvir, e isso significa dizer a seus representantes (as elites políticas) o que ele quer. Isso posto, o desenvolvimento sustentável deve ser uma convicção de toda a sociedade e não apenas dos seus dirigentes – até porque, no Brasil, esses últimos não têm uma tradição nesse rumo.

- Na sua opinião de que maneira a mídia, especialmente a televisão, interfere na escolha de um candidato?

Melhorou bem este ano, pelo menos para a presidência da República e isso até agora, dia 15 de setembro. A principal rede de televisão entrevistou os principais candidatos de maneira bastante limpa. Em eleições passadas, ela interferiu pesadamente, sobretudo no pleito que resultou na escolha de Collor, em 1989. Mas mesmo num ambiente de mais liberdade e respeito, como o atual, a mídia expressa uma série de valores que acabam atuando. Há anos, por exemplo, que ouvimos que as políticas ditas neoliberais são as melhores, ou mesmo as únicas possíveis. É claro que isso interfere.

- Que outros fatores também são relevantes para assegurar a vitória de um candidato?

Idealmente, deveria prevalecer a reflexão do eleitor, levando em conta os projetos e o passado de cada candidato. Mas para isso deveríamos ter eleitores multi-meios. Explico-me: um dos problemas de nossa educação é o baixo número de pessoas letradas. Mesmo os alfabetizados têm pouco hábito de ler. Ora, a leitura é um dos meios que mais armam as pessoas para a vida, mediante a reflexão e o uso da crítica. Como há pouca leitura no Brasil, há poucos elementos para a maior parte da população interpretar com autonomia o que chega a ela pela mídia.