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Sobre a experiência de usar a Web em cursos de Filosofia

Quero compartilhar com os colegas a experiência que tive, este ano de 2003, ao pedir que os alunos me enviassem seus trabalhos por e-mail e não em papel. Na verdade, foram duas experiências, uma muito bem sucedida, na pós-graduação, outra bem mais complicada, na graduação. Descrevo, comento e sugiro.

No primeiro semestre de 2003, ministrei a disciplina de pós-graduação em Filosofia que intitulei A cultura pela cultura, no departamento de Filosofia da USP, onde trabalho. O curso, que tinha muitos inscritos para uma pós (cerca de 40), deslanchou mesmo foi quando decidi abrir um site na Internet e propus que os alunos o abastecessem com artigos, estudos e – no caso de uma aluna artista – fotografias e pinturas. Isso criou uma relação ótima no interior da classe e fez que alunos até então calados se manifestassem. Também abriu lugar para uma polêmica vivaz mas educada entre dois estudantes psicanalistas.

Pedi que me mandassem os trabalhos por e-mail, e os corrigi, ou melhor dizendo, para não ficar na posição de quem tem a razão e vê os outros como imaturos, comentei-os. Usei para isso a ferramenta Controlar Alterações, do Word. Para quem não sabe, ela permite deixar bem salientes as modificações que o leitor introduza no texto. Falando em termos de estética da recepção, ela explicita o quanto a leitura é, também, uma escrita. É como passar o lápis vermelho ou azul: ficam evidentes as correções e os comentários. E tem a vantagem de não gastar papel e de permitir guardar todos os trabalhos, se isso for interessante. Eles também podem circular entre os alunos, ser publicados no site do curso, enfim, há várias possibilidades.

Tudo funcionou muito bem. É claro que pedi aos alunos que passassem anti-vírus. Para devolver os trabalhos, imprimi-os em papel e marquei uma reunião presencial, em pleno mês de julho: de uns 30 trabalhos comentados, compareceram 26 autores ao encontro. Não podiam ser melhores os resultados. As aulas tinham-se estendido além do necessário (a pós requer 12 aulas na USP, tivemos 15, mais esse encontro) e a lembrança do curso ficou boa.

Na graduação, os resultados foram mais tímidos. Num curso como no outro, aliás, o site foi montado graciosamente por um aluno – Edson Teles no primeiro, Pedro Milliet no segundo. Nos dois casos, o site era o nome do curso, colocado no provedor gratuito hpg – portanto, os sites foram e . Mas, na graduação, o site acabou sendo unilateral: ficaram nele o programa do curso, os critérios de trabalho final e três textos básicos que trabalhamos, todos eles de domínio público – O Príncipe, de Maquiavel, em português, o Leviatã, de Hobbes, em inglês, e o Contrato Social, de Rousseau, em francês. Não houve mão dupla.

A entrega dos trabalhos na graduação, essa sim, foi muito complicada. Recebi mais de 150, o que é bom sinal. Contudo, o primeiro ponto que constato é que os pós-graduandos dominam e usam muito melhor a Web do que os graduandos. Os primeiros a abrem todo dia ou quase, enviam arquivos legíveis, respondem a e-mails. Os segundos, com certa freqüência, não colocam o próprio nome no texto e até mesmo usam programas para redigi-los que não podem ser lidos pelo Word, o que dá um problema enorme para o professor. Além disso, é grande o número dos que não abrem seus e-mails. Isso fez que alguns deles me pedissem algum favor – como aceitar o trabalho atrasado – e minha resposta fosse devolvida, porque tinham estourado a cota do servidor ou simplesmente não abrissem o e-mail antes de dez ou quinze dias.

O problema mais simples no recebimento dos trabalhos de graduandos foi o seguinte: eu precisava, a cada trabalho, gravá-lo no disco rígido. Mas raríssimos tinham o nome do autor como título do arquivo! Portanto, precisei quase 150 vezes abrir o arquivo, procurar o nome do autor (em alguns casos, não constava e eu precisei remontar ao e-mail de remessa – mas este às vezes pertencia a outra pessoa...), fechar o arquivo e gravá-lo tendo como título o nome do aluno. Só isso me custou umas três horas.

Penso que é óbvia a diferença entre graduandos e pós-graduandos. Estes são em menor número, mais maduros, mais acostumados à responsabilidade. Aqueles são numerosos, menos afeitos a uma via de mão dupla nas relações, menos freqüentadores da Web do que seria de se pensar.

Disso, formulo algumas sugestões:

  1. Se você quiser receber os trabalhos pela Internet, use isso de preferência em classes pequenas e com boa dinâmica interna. Procure fazer isso ligado a um site de curso que tenha aberto no início do semestre e que seja de mão dupla, isto é, não apenas um site de avisos, mas um em que os alunos colaborem com produção própria. O importante é que assim você irá além do uso da Internet como apenas algo técnico, para com isso fazer o melhor uso dela. Não estará apenas poupando papel, mas melhorando as relações.

  2. Para receber os trabalhos, abra uma conta em provedor gratuito, como Hotmail ou equivalente. Essa conta você fechará ou deixará desativar-se ao terminar o curso, de modo que o lixo que virá por ela não o afetará mais. Na verdade, você usará a conta apenas para um final de curso, e depois a esquecerá. Também poderá, a cada trabalho que chegar, dar um comando de Resposta e assim tranqüilizar o aluno, que saberá que está tudo certo com a entrega do texto dele.

  3. Exija que cada aluno mande o trabalho em attachment; que a casa Assunto, no e-mail, tenha o nome completo do aluno; que o título do arquivo também seja o nome completo de quem escreveu o trabalho; que esse nome conste na página de rosto, bem no alto; que o trabalho seja escrito num programa de sua escolha (uma boa opção é o RTF, que não é de Bill Gates mas é legível em quase todas as máquinas).

  4. Se quiser, também determine um tamanho máximo do trabalho. Esta experiência é uma das que mais me satisfez, de dez anos para cá. Notei que os trabalhos muito longos geralmente são ruins, porque mostram exatamente que o aluno não sabe selecionar o essencial e o secundário. O mais simples, se você receber o trabalho em suporte eletrônico, é definir seu limite máximo em número de caracteres. O Word, na opção Ferramentas/Contar palavras, também dá o número de caracteres, com espaço ou sem espaço (isto é, incluindo ou não os brancos entre uma palavra e outra). Convém deixar claro, para o aluno, se o limite que você está definindo é com ou sem espaços..

  5. Exija também que cada aluno passe um anti-vírus no seu computador e deixe claro que é responsabilidade dele abrir o e-mail com freqüência, para atender a questões suas (o trabalho pode ter chegado ilegível, incompleto etc, e necessitar de complementação urgente por parte do aluno).

  6. Corrija os trabalhos usando Ferramentas/Controlar alterações. Devolva os trabalhos para cada aluno, usando o comando Responder.

  7. Se combinar isso com a classe, coloque os trabalhos (todos ou os melhores) no site do curso. O ideal seria não só fazer isso, mas deixar espaço para eles serem comentados, pelo professor antes de mais nada, mas também pelos outros alunos. Neste caso, o site poderia ser aberto à leitura de qualquer interessado, mas a escrita nele dependeria de ter uma senha de acesso, que só os alunos do curso teriam, para evitar o lixo que geralmente ingressa em listas de discussão abertas. Mas isso deve depender do gosto das pessoas. Pode também ser facultado o acesso a estranhos.

    Isto é muito importante, porque faz que um curso – que pode ser uma pequena ágora, um espaço coletivo de discussão – não termine em queda livre, ao converter todos os seus resultados em mero relacionamento privado entre o professor e o aluno, focado na questão da nota. Já tendemos demais a isso. Já é comum demais que, quando abrimos a discussão sobre o curso, a questão central sejam o trabalho e os critérios de correção dele. Então, se a dinâmica do curso, se o seu ser-ágora não terminar no último dia de aula, mas resultados dele continuarem disponíveis e se ele gerar listas de discussão, isso será ótimo!

Fui um tanto detalhista, mas creio que tudo o que eu disse é razoável. E em breve é provável que estejamos recebendo boa parte, se não todos, dos trabalhos em e-mail. Neste momento, aliás, tendem as Universidades a mandar que o próprio professor lance as notas pela Internet. A questão decisiva é a seguinte: não vamos deixar o uso desses instrumentos ser só um assunto técnico. Para que valha a pena, é preciso que seja um modo de ampliar a ágora, talvez escassa, de que hoje dispomos.