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Documento de Síntese para a Reunião Temática: Ciências Humanas

Este artigo enfatizará basicamente dois pontos nas ciências humanas, ou nas humanidades: o da pesquisa de ponta e o de sua aplicação prática. Dizendo de outro modo, tratará do que nelas é C&T: 1) a ciência, enquanto pesquisa; 2) o equivalente à tecnologia, como aplicação prática. Darei menor ênfase à formação graduada e pós-graduada. Esta escolha não se deve apenas à razão conjuntural de este texto estar voltado a um seminário do Ministério da Ciência e Tecnologia, e não da pasta da Educação, mas a razões mais profundas: a necessidade, primeiro, de dissipar uma série de preconceitos muito difundidos sobre o que seria a aplicação prática das humanas, segundo, de insistir em medidas voltadas a um maior deslanche das mesmas entre nós, e que também possa atender a desafios prementes de nossa sociedade.

Caracterização das ciências humanas e das humanidades.

Começarei por uma rápida caracterização das ciências humanas e das humanidades1. Estas possuem dois traços fundamentais. O primeiro é que nelas o sujeito e o objeto do conhecimento coincidem. O ser humano é sujeito de conhecimento, como em todas as ciências, mas também seu objeto, o que constitui a diferença específica destas disciplinas. Tal fato coloca problemas epistemológicos que não existem, em dimensão comparável, nas demais ciências. A objetividade se torna muito difícil, e a imparcialidade, impossível2. O eixo da discussão epistemológica assim passa pelos modos 1) de reduzir a parcialidade a um mínimo, se possível mimetizando o procedimento das ciências exatas, mas com êxito pequeno ou apenas local 3 – ou 2) de levar em conta a parcialidade, reconhecendo-a como inevitável, e procurar então lidar melhor com ela, elaborá-la melhor (é o caso das pesquisas de ponta no que se convencionou chamar pós-moderno, e que em larga medida discutem a quase-impossibilidade do conhecimento, ou os modos como o conhecimento está condicionado por imperativos da ação).

Contudo, minha tese principal é que esta aparente liability das humanas pode, e deve, ser considerada como um asset. Desde, pelo menos, Karl Marx e Max Weber sabemos que o conhecimento está condicionado pela ação. O eixo do conhecimento em humanas é, sobretudo, a exploração dos modos como esse mesmo conhecimento é perturbado pela coincidência do sujeito com o objeto. Isso, que parece às vezes um andar em círculos, na verdade tem produzido uma série de reflexões bastante agudas e afiadas. Basta lermos os autores do começo do século para vermos, a par de contribuições que permaneceram, a que distância estamos deles, os saltos que se deram desde então, em suma, se quisermos, os progressos havidos nas ciências humanas4.

Daí, podemos inferir que o progresso nas ciências humanas não opera do mesmo modo que nas demais ciências. Ele é certamente menos linear, e mesmo as revoluções kuhnianas aqui funcionam de outro modo. O fundamental, pois, neste primeiro ponto é que: 1) nas humanas o sujeito e o objeto estão vinculados a ponto de isso perturbar o conhecimento produzido; 2) mas essa vinculação, que torna problemático o conhecimento, é justamente o alvo principal, o principal produto de conhecimento das humanas; 3) tal vínculo é essencialmente do conhecimento com a ação, isto é, a posição do sujeito enquanto agente condiciona-o enquanto cognoscente5.

Uso da linguagem natural.

Deve-se frisar que em nosso trabalho científico usamos a linguagem natural. As demais ciências se foram constituindo e/ou fortalecendo à medida que formalizavam sua linguagem – em especial mediante o recurso à matemática que, desde os albores da modernidade, revolucionou o conhecimento, primeiro através da geometria e, depois, de outros modos de tornar artificial a linguagem científica. Nas humanas, porém, a linguagem utilizada é a natural, a mesma do dia a dia.

Evidentemente esta linguagem é empregada com rigor, e portanto a mesma palavra que para o senso comum porta um significado – ou vários –, virá a ter outro, mais preciso, em cada ciência humana, ou em cada vertente da mesma. Submete-se assim a polissemia da linguagem usual a definições mais precisas. Mas, de qualquer forma, esta operação incide, no caso de cada discurso científico, sobre algumas dezenas ou centenas de palavras – dificilmente mais que isso.

O uso da linguagem natural induz a um equívoco bastante comum, especialmente por parte de nossos colegas de outras áreas. É que fica, por vezes, pequena a distância entre nosso texto científico e o de divulgação, como se pode notar, em particular nos períodos eleitorais, nos depoimentos de cientistas políticos à imprensa.

Mas dois recortes bastante pronunciados nas outras áreas não têm o mesmo peso para nós: a separação entre o texto de pesquisa e o de divulgação, em primeiro lugar, e a diferença entre o discurso científico e o de opinião, em segundo. Como muitos equívocos aqui germinam, aprofundarei esta questão.

Pesquisa e divulgação.

Se a linguagem natural é nossa base, e se ela é o veículo de comunicação social por excelência, entende-se que tanto a pesquisa quanto a divulgação a utilizem. Nas demais ciências, ao contrário, a pesquisa será tão mais refinada quanto mais se formalizar, esvaziando-se de variáveis inoportunas ou desprezíveis. Para nós, processo análogo pode – e deve – ocorrer no processo de pesquisa, mas com a significativa diferença de que o refinamento rigoroso procede, não pela substituição da linguagem natural por uma formalizada, e sim no interior da própria linguagem natural.

Assim, é curioso notar que enquanto nossos colegas cientistas estranham que usemos esta linguagem, a seu ver degradada, para pesquisar, e que portanto apresentemos eventualmente um mesmo texto como produto de pesquisa e de divulgação, os jornalistas simetricamente reclamem de nossa obstinação em não aceitar que uma palavra seja substituída por outra, em recusar que nossas idéias sejam resumidas ou explicadas para o comum dos mortais em termos jornalísticos. Somos pouco rigorosos aos olhos dos que formalizam, porque usamos a linguagem natural, mas o somos em demasia – porque tornamos rigorosa essa mesma linguagem – aos olhos dos que comunicam6. E isso porque nossa posição, lidando com o mesmo medium para pesquisar e comunicar, é desconfortável.

Texto científico e de opinião.

A segunda separação que para nós fica reduzida é entre o texto científico e o de opinião. Neste período eleitoral, quantos cientistas políticos não assinaram colunas de opinião nos jornais! Mas isso que o jornal chama de opinião é, no caso, fruto de uma reflexão, que por vezes chega a ser exposta em seus próprios termos – embora, repito, as mediações do raciocínio nem sempre possam ser transmitidas ao leitor, mesmo refinado, de um suplemento cultural.

Essa transição às vezes pouco perceptível entre a reflexão teórica e a opinião acarreta um problema que pude notar, por exemplo, no Plano de Trabalho que nos foi apresentado. O problema é que, como usamos a linguagem natural e além disso opinamos, o leigo em ciências humanas – muitas vezes um especialista em outras ciências ou um administrador de C&T – pensa que as questões que discutimos são de mera doxa, de simples opinião.

Para ser mais preciso: como uma parte de nossos temas tem a ver com a cidadania, e todo cidadão tem portanto direito de opinar e inclusive de decidir a respeito, confunde-se muitas vezes o que é essa opinião pública com o que constitui uma reflexão científica. Daí que temas cruciais das ciências humanas sejam discutidos como se fossem questões às quais não se aplica racionalidade ou rigor.

Tomo a liberdade de apontar este fato no Plano de Trabalho, por exemplo, quando ele trata da necessidade de tornar mais justa nossa sociedade. Tal afirmação não resulta, porém, em medidas concretas ou sequer em propostas precisas, num grau de concreção ou precisão sequer comparável ao dos pontos que envolvem as ciências exatas e biológicas ou a tecnologia. Veja-se na p. 11 a referência à necessidade de "eliminar problemas sociais", e a alusão à "construção de uma sociedade efetivamente democrática e eqüitativa", dois pontos que não são desenvolvidos; ao segundo se segue apenas a menção aos "desafios mais concretos de geração e incorporação social e econômica das novas tecnologias", desaparecendo o que possa dizer respeito a sociedade, a democracia e a equidade. Na p. 12, a referência ao "potencial produtivo do exercício da cidadania", que é importantíssima, não é explicada nem desenvolvida. Mais direta é a alusão à "cidadania do conhecimento" (também na p. 12), para a construção da qual se pede, pela primeira vez, a colaboração das Ciências Sociais – mas também aí a ênfase está posta na incorporação, por estas, de disciplinas de matriz exata (matemática, estatística e computação). Poderia prosseguir; apenas anoto que na p. 18 a "consolidação da cidadania" remete a "redes de alta capacidade e baixo custo de acesso", a "códigos de ética para sociedade da informação" e a "tecnologia de segurança e privacidade". Tudo isso é muito pouco, para consolidar a cidadania.

O que observo aqui é que alguns termos, como cidadania, democracia, justiça são usados por nossos colegas de maneira um tanto imediata, sem a reflexão que as humanas produziram a esse respeito. Daí que – entre outras propostas – as de reduzir desigualdades, eliminar a miséria, tornar mais democráticas as oportunidades não apareçam articuladas com ações precisas: e não aparecem porque sequer se procede a um diagnóstico adequado das mesmas. Nas análises que tenho lido, as resistências que impedem a justiça social surgem, quando muito, como resíduo de uma cultura ibérica patrimonialista, que o empenho racional de modernizar venceria, ainda que necessitando bastante esforço. É desconhecer tudo o que as humanas têm a dizer a esse respeito. Voltarei a isso.

Conseqüências: a interdisciplinaridade.

As conseqüências da descrição que propus das humanas – a coincidência entre sujeito e objeto, e o uso da linguagem natural como linguagem de rigor – são várias. Argumentarei que são globalmente positivas, mas como não são devidamente compreendidas induzem os cientistas em geral, e inclusive os de ciências humanas, bem como os administradores de C&T, a uma série de equívocos.

O ponto principal é o seguinte: as fronteiras, nas humanas e nas humanidades, são mais permeáveis. Assim, penso que a interdisciplinaridade se produz mais fácil e espontaneamente nas humanas do que em outras áreas, e isso justamente porque o contato entre uma disciplina e outra é facilitado por sua menor formalização, ou por sua não-matematização. O comum recurso à linguagem natural permite maior fluidez na leitura recíproca.

Isso leva, por sua vez, a dois resultados. O primeiro é que parte dessa leitura mútua – entre cientistas de distintas áreas – ocorre, não só em journals arbitrados com referees, mas até em textos de jornais, em especial nos suplementos culturais de melhor qualidade, como os Reviews of Books de Nova York, de Londres, e ainda os do New York Times e do Times londrino, para não falar no Mais! do jornal Folha de S. Paulo, que já publicou textos preciosos. Esse tipo de órgão, que para um cientista de outra área seria apenas de divulgação, para nós pode veicular trabalhos de primeira qualidade. Curiosamente, a publicação nos journals da área, mesmo os melhores, acaba contemplando muitas vezes pesquisadores iniciantes, com trabalhos corretos porém mais escolares, enquanto bonnes feuilles ou primeira leitura de obras relevantes apareceram, várias vezes, nos suplementos da grande imprensa. A questão, obviamente, é de mercado. Um pesquisador destacado pode ser convidado a escrever um longo artigo de capa de um desses suplementos – para não citarmos brasileiros, lembraria o nome de Robert Darnton, um dos mais importantes historiadores do século XVIII, que revolucionou em vários pontos o estudo daquela época7. O mesmo convite não será dirigido a um pesquisador iniciante. Embora os critérios de mercado não sejam necessariamente os da qualidade científica, neste caso tampouco ocorre que sejam, sistematicamente, opostos a ela. Evidentemente, um artigo de jornal não se aprofunda tanto como um de revista, mas em certos casos trata-se de uma diferença mais da forma da apresentação (o aparelho crítico, as notas, a linguagem interna corporis) do que de seu conteúdo efetivo.

O segundo é que assim opera pelo menos parte de nossa interdisciplinaridade. O contato com o trabalho de ponta da outra área se dá de várias formas, mas é facilitado pelo uso da linguagem natural. Como cada área a trabalha com rigor, as palavras têm um sentido próximo. Evidentemente, como o rigor de cada área prioriza certos termos, em detrimento de outros, ocorrem equívocos. Mas as intersecções entre os vários rigores acabam permitindo um diálogo, ou pelo menos uma leitura recíproca, capaz de fecundar novos trabalhos. Basta observar o papel que tiveram, nas décadas de 1970 em diante (depois do sucesso da lingüística na época do estruturalismo, que corresponde a outro padrão), a antropologia e em certa medida a filosofia, influenciando novos modos de trabalho nas demais ciências humanas8.

Crítica às agências de fomento no tocante às ciências humanas.

Este ponto já permite uma primeira crítica ao modo como têm procedido as agências de fomento no tocante às ciências humanas. A convicção delas tem sido de que é preciso consolidar as áreas, mas isso segundo um modelo único, que prioriza, entre outros fatores, a construção de um espaço interno à área, assinalado por vários indicadores. Resulta disso um esvaziamento da interdisciplinaridade.

O trabalho interdisciplinar é uma das principais baixas (casualties, para ficar claro do que estou falando) quando se enfatiza a necessidade de desenvolver uma área, com associação científica, programas de pós-graduação, revistas com referees, congressos que fortaleçam o discurso da própria área. Resulta disso que muitas vezes é prejudicado justamente o que de melhor se fazia, de maneira espontânea, em especial o contato interdisciplinar.

O irônico é que, uma vez esvaziada a interdisciplinaridade pelo relevo dado ao trabalho interno à área, as agências se preocupam em abrir nichos para a interdisciplinaridade. Presenciei esse esforço quando fui membro do Conselho Deliberativo do CNPq. Aprovamos em 1993-94 a criação de um CA interdisciplinar, cujas atribuições e perfil ficaram vagos. Não se definiu exatamente se seria um CA para examinar projetos interdisciplinares, repelidos dos CAs específicos, que faziam espantoso (mas muito racional) jogo de empurra com os mesmos, a fim de reservar seus orçamentos para trabalhos puros e fiéis à área, - ou se seria um CA de primeiro plano, formado de conselheiros diretos da presidência do CNPq para a matéria científica de ponta. O caso é ilustrativo, porque mostra, primeiro, que cada CA tende a fechar-se sobre si e a expelir, a fim de preservar suas verbas, o trabalho que seja interdisciplinar; segundo, que um CA voltado para este enfoque acaba se tornando apenas uma câmara revisora de projetos que caíram no buraco negro de não terem rótulo preciso de tal ou qual área. Em vez de considerar o excelente, o inovador, o trabalho de ponta, converte-se numa câmara recursal para o pior e, eventualmente, o melhor. – Em suma: o empenho em cristalizar as áreas acaba produzindo, ex post facto, uma tentativa de suprimir aquelas mesmas fronteiras que a administração de C&T se empenhou, com denodo involuntário, em erguer.

Voltaremos às conseqüências de nossos modos de publicar. Por ora, insistirei na aplicação prática das ciências humanas, ou seja, o que seria nosso equivalente ao que é a tecnologia no caso das ciências exatas e biológicas.

Aplicação prática das ciências humanas: a sua "tecnologia".

Enorme preconceito paira no tocante à aplicação prática das ciências humanas. Por um lado, parte razoável, se não a maior, da comunidade científica de humanas rejeita a possibilidade de tal aplicação. Equivocadamente, ela entende que tal aplicação seria óbvia para as ciências exatas e biológicas, e até mesmo que seria imposta pelos cientistas dessas áreas. (Pude constatar, no CD do CNPq9, que é bastante duvidosa essa suposta adesão entusiástica dos cientistas exatos e biológicos ao mercado, ao capital e à tecnologia). Por isso mesmo, a comunidade de humanas alegra-se quando, entre esses últimos cientistas, encontra aliados para rejeitar o que considera ser uma intrusão do mercado numa área a ele imune, que é a da pesquisa pura. Pretendo criticar estes equívocos da comunidade, mas antes assinalo que se eles prosperaram foi porque a administração de C&T tomou, aqui, caminhos também equivocados, desconhecendo em que consiste a aplicação prática das humanas.

O grande erro, comum quase a todos os interlocutores, é o seguinte. Afirma-se que as ciências – ou a Universidade – devem relacionar-se com a sociedade. Mas reduz-se a sociedade, num momento seguinte, ao ambiente produtivo de bens e serviços, que é o das empresas. Deixa-se de lado tudo o mais que existe na sociedade, como por exemplo formas de vida, relacionamentos sociais, movimentos reivindicativos. Prova do que estou dizendo percebe-se no fato de que quase todo o discurso, em ambiente acadêmico, que se profere sobre a relação entre Universidade e sociedade acaba se referindo aos modos de transferir tecnologia para as indústrias ou empresas.

Assim, o conceito de sociedade deve ser expandido. A produção de bens e serviços é um de seus aspectos, mas não pode ser o único. Ora, como a sociedade inclui os seres humanos que nela estão – e como as coisas (bens e em certa medida serviços) na verdade são apenas mediadoras entre relações sociais entre pessoas – a relação entre a Universidade e a sociedade é objeto por excelência das ciências humanas. Não se justifica, então, o alheamento destas: nem o que é promovido por uma leitura equivocada da C&T, empenhada em mostrar serviço vendendo tecnologia, nem o que constitui reação de autodefesa de professores que sentem diminuído o seu trabalho porque acaba não cabendo nas prioridades definidas em nível ministerial.

Há mais que isso. Não é só conceito de sociedade que está falho, mas também o de produção. Hannah Arendt observou que, em grego, há dois termos principais para designar o que chamaríamos ação ou produção. Um deles é o de techné, que gera nossas palavras técnica, tecnologia, e que indica a ação do homem sobre a matéria: ela traduz esse termo por fabricação. Outro é o verbo prattein, com o substantivo praxis, que se refere à ação do homem sobre o homem. A grande diferença entre a técnica e a práxis é que, no caso da segunda, ocorre uma interação. Eu, humano, ajo sobre outro humano, que reage – ou age – também sobre mim. (É claro que também as coisas reagem; mas a diferença é que, na interação humana, o sujeito e o objeto da ação são da mesma espécie; a reação da coisa é diferente da reação do humano). O problema da modernidade, entende Arendt, é que ela enfatizou em demasia a fabricação e descurou da práxis.

Ora, meu argumento é que – tanto os cientistas humanos na defensiva, quanto aqueles a quem eles acusam de obrigá-los a ser produtivos – pensam a produção enquanto techné, e não enquanto práxis. Para a técnica, é óbvio que as ciências humanas têm pouco a contribuir. Não é seu horizonte o da produção de bens, e o que podem dar à produção de serviços é mais uma reflexão crítica.

Contudo, elas têm muitíssimo a dizer sobre a produção enquanto práxis. E é o desconhecimento desse fato que tem concorrido, mais que tudo, para um duplo e péssimo reflexo: por um lado, a pressão das reitorias e das próprias agências, bem como da imprensa, cobrando as ciências humanas para que façam o que não será sua melhor obra, isto é, ajudar um aumento mensurável da produção de bens e serviços; por outro, um encastelamento de parte significativa dos pesquisadores da área, recusando-se a pensar a aplicação prática de seus conhecimentos, de suas pesquisas, naquilo mesmo em que têm muito a dizer e a fazer.

Darei um exemplo do que é feito e outro, do que pode ser feito. Uma das grandes contribuições da pesquisa em humanas é a que tem sido conduzida pelo Núcleo de Estudos da Violência, da USP. Desde vários anos seus membros pesquisam não só aspectos quantitativos, mas também qualitativos, da violência. Disso decorre uma série de aplicações práticas, de que são mais visíveis os Planos, que redigiram, tanto Nacional quanto Estadual (paulista) de Direitos Humanos. Recentemente, em 2000, sua ação lhe valeu vencer uma concorrência da Fapesp na indução de grandes projetos de pesquisa. Sua atuação é assim exemplar no modo como articula a pesquisa de ponta – muitos de seus resultados são inovadores em face de um senso comum equivocado a respeito da segurança – e a extensão, isto é, o que chamei de aplicação prática do conhecimento obtido. Contudo, deve-se notar que, justamente por isso, o Núcleo ficou assoberbado de trabalho. Passou a ser considerado como uma espécie de cartão de visitas da Universidade, ou de reserva moral, no mundo acadêmico, dos direitos humanos. Sua ação é requisitada, muitas vezes, lá onde não se necessita propriamente de uma intervenção cientificamente habilitada, mas sim de vontade política10. Obviamente isso estressa os seus pesquisadores.

O outro exemplo é o de algo que deveria ser feito e ainda não o foi. Em 1993, num debate que presidi sobre parlamentarismo, o cientista político Luciano Martins comentou que a Nova República não havia promovido uma educação para a democracia. Nem, por sinal, foi ela promovida desde então, embora existam Escolas de Governo em São Paulo, Fortaleza e Belo Horizonte, pelo menos, mas – salvo a última, que é da Assembléia Legislativa – nenhuma delas pertencente ao poder público11. O fato é que dispomos, graças a pesquisas das ciências sociais mas não só delas, de vasto conhecimento teórico sobre o autoritarismo e o patrimonialismo, porém, até o momento, não se converteu esse conhecimento, sistematicamente, em práticas.

Uma educação para a democracia não seria apenas a preparação de novos quadros para a política e a administração, dentro de princípios como transparência, accountability, respeito aos direitos humanos, priorização do cidadão sobre os interesses da administração ou da corporação, respeito ao patrimônio público. Implicaria também ações contra a tradição autoritária nos costumes brasileiros e tudo aquilo que, na sociedade, mantém ou preserva a desigualdade, a injustiça, a miséria. Neste sentido, poderia ancorar uma espécie de PADCT para a área de humanas, talvez funcionando como um dos projetos que mais possam agregar esforços, uma vez que, além das três ciências sociais – sociologia, antropologia e ciência política – tem implicações para a psicologia, o direito, a pedagogia, a história e a filosofia, isto sem falar, mais indiretamente, nas comunicações, letras e economia12.

Finalmente, um dos campos em que melhor se deu a contribuição das ciências humanas para a sociedade é nos artigos de op ed da imprensa brasileira – inclusive rádio e televisão – difundindo uma nova consciência da política. A crítica ao patrimonialismo, a defesa da transparência e outros valores básicos do Estado de direito foram, assim, difundidos. Mesmo no caso de valores mais controversos – como no debate da privatização versus a manutenção do controle estratégico do Estado sobre a economia – ambos os lados foram municiados por estudos de cientistas políticos e sociais. Inegavelmente a qualidade do debate político avançou com a democracia, e isto em boa medida é efeito do trabalho das ciências humanas.

Em suma, o essencial é compreender onde se dá a aplicação prática das ciências humanas e, isso entendido, potencializá-la, aumentá-la, identificar e arrebentar os gargalos que a limitam. O que expus mostra que no campo das humanas é problemático distinguir a divulgação e a aplicação prática.

Nas ciências exatas e biológicas, trata-se de dois domínios inteiramente distintos. A divulgação visa a atrair novas vocações para a ciência, ou a despertar uma consciência a respeito dela na sociedade, que aumente seu peso político (este, o duplo papel da imprensa científica, quer como editoria nos grandes jornais, quer com revistas próprias). Já a aplicação prática se dá em laboratórios, mediante iniciativas que certamente se distinguem da pesquisa básica, mas que têm em comum com esta estarem à distância do grande público. Este é beneficiário da tecnologia, mas nem sequer se imagina que venha a conhecer os seus meandros.

Já nas ciências humanas, boa parte da aplicação prática passa, justamente, por gerar uma nova consciência social, política e humana. Isso depende diretamente da divulgação. Por isso mesmo, é raro que seus resultados apareçam, por exemplo, nas seções da imprensa voltadas à ciência. A leitura do que as ciências humanas tenham a dizer não se dá propriamente nos cadernos ou revistas de ciências, mas sim, antes de mais nada, no caso dos jornais diários e revistas semanais, nos cadernos culturais e nos de política brasileira13.

Este dado não significa, porém, que a aplicação prática das ciências humanas consista apenas em gerar uma nova consciência do Umwelt humano. Elas também servem, e bastante, para formular políticas públicas, que encontram no Estado, ou nas instituições que foram crescendo para emular o papel do Estado, à medida que este delegava o setor social ao voluntariado das ONGs, o seu principal cliente.

Contudo, há que distinguir dois destinatários principais do trabalho das ciências humanas. Um é o mercado 14 usual das pesquisas, que são o Estado e o para-Estado das ONGs, de que acabo de falar. É um destinatário bem constituído, que remunera, que geralmente – mas nem sempre – tem uma visão profissional do trabalho que contrata dos profissionais da área. Muitas vezes também, embora nem sempre, as pesquisas de fato resultam em políticas, o que é muito positivo.

Mas a novidade do enfoque que aqui proponho está em considerar também um segundo destinatário, este bem mais difuso, que é o da formação de uma opinião pública à luz das grandes descobertas das ciências humanas. Deter-me-ei neste ponto.

Sabe-se que uma inovação tecnológica demora cada vez menos tempo para ir da bancada em que veio à luz até o consumidor. A tendência, hoje, é que esse prazo chegue a seis meses. O exame de tudo o que portamos no corpo é muito instrutivo a respeito, embora obviamente seja difícil ao leigo identificar cada inovação tecnológica que está vestindo ou usando. A mesma questão cabe no caso das Humanas: o que, das descobertas científicas que ela efetuou, resulta ou resultou em mudanças de vida? Quais os efeitos práticos da pesquisa? De que maneira ela beneficia a sociedade?

Tentamos sugerir, acima, maneiras de responder a esta pergunta. Apontamos uma primeira, evidente e direta apropriação da pesquisa, aquela efetuada pelo Estado e pela dimensão pública da ação social em gerar (poderia incluir aqui toda a pesquisa que tem cliente determinado, que se dá no mercado, como p. ex. a de uma empresa que contrata a elaboração de um Relatório de Impacto Ambiental ao projetar uma represa, ou ainda a de uma indústria – caso mais raro mas que precisa crescer – que encomende uma pesquisa sobre os efeitos sociais de sua produção, quer sobre os seus trabalhadores, quer no mercado de consumo).

Delineamos uma segunda apropriação, menos evidente, extremamente lábil, pouco profissionalizada, e que tem a ver – sobretudo mas não só – com a constituição de uma opinião pública republicana, empenhada em contestar o patrimonialismo e o autoritarismo. O problema desta apropriação, porém, é que – embora talvez tenha um impacto sobre a sociedade mais forte do que a primeira – ela é bem menos profissionalizada e depende quase por completo de uma demanda dos órgãos de imprensa. É o caso, por isso mesmo, de tecer recomendações a respeito, o que farei logo adiante. Antes disso, contudo, é preciso elaborar o conceito de apropriação social da pesquisa.

Apropriação social da pesquisa.

O CNP q sempre trabalhou, como as outras agências, com o conceito de beneficiário dos recursos concedidos. O beneficiário é simplesmente aquele que pede o recurso financeiro e que, ele concedido, recebe-o, aplica-o e presta contas. Uma sugestão discutida no Conselho Deliberativo do CNPq em 1995-96 foi a de acrescentar aos formulários o conceito de beneficiário social da pesquisa. A idéia é que os recursos fossem solicitados identificando-se qual o retorno que viria, para a sociedade, da pesquisa em questão.

A discussão a respeito foi delicada – eu a relatei no Conselho – e avançamos significativamente nestes pontos15. Ficou claro, primeiro, que a idéia de retorno para a sociedade deveria ser a mais ampla possível, não se admitindo a identificação de sociedade apenas com o mercado, o setor produtivo ou as empresas. Segundo, que não se deveria utilizar esse conceito como critério principal para concessão ou não de recursos. Mas o lado positivo dessa indagação é o de identificar quem são os beneficiários, não apenas de uma visão contábil da concessão de recursos, mas da pesquisa a médio ou longo prazo. Nada impede, por exemplo, que uma pesquisa seja financiada cuja finalidade básica seja formar quadros para a Universidade numa área que ou está carente, ou está em plena expansão. O que falta, todavia, muitas vezes é a nítida percepção de para que se está financiando tal ou qual pesquisa, em suma: falta sair da chamada série histórica, ou da inércia na distribuição de recursos, para se pensar prospectiva e não retrospectivamente.

E aqui tem sentido perguntar como se dá a apropriação social da pesquisa. Um exemplo pode ser retirado das áreas tecnológicas. Imaginemos que se consiga uma cola perfeitamente adequada para o couro do gado brasileiro, que portanto melhore a qualidade de nossos calçados. A questão que se coloca para o CNPq é: como arbitrar os benefícios sociais dessa pesquisa? Entende-se, se ela foi financiada pelo CNPq, que parte dos royalties vá para o Conselho e parte para o pesquisador. Mas, afora isso, trata-se simplesmente de uma tecnologia que será transferida graciosamente para as empresas, ou será ela vendida às que paguem? Deve-se cobrar muito pela invenção, ou pouco, mas neste caso sob a condição de que o ganho tecnológico seja repassado, sob a forma de maior qualidade e menor preço, aos consumidores? Essas questões têm sido pouco debatidas, embora o estejam sendo cada vez mais, e não podemos alhear-nos delas16.

As recomendações no tocante ao impacto social da pesquisa, ou à sua extensão, em Humanas são as seguintes:

  1. Recomenda-se ao MCT, e às agências de fomento em geral, que levem em conta a especificidade das aplicações práticas das Ciências Humanas, procurando valorizá-las naquilo em que são boas e não lhes impor procedimentos que só as atrasarão ou mesmo prejudicarão. Por isso mesmo, devem envidar esforços no sentido das recomendações terceira e quarta, logo abaixo.

  2. Á comunidade científica de Humanas, recomenda-se que evite a postura defensiva em relação à sociedade, assumindo que – se as relações de compromisso social da Universidade são com a sociedade – esta última é o objeto científico justamente da maior parte das ciências humanas, de modo que elas podem e devem assumir atitude mais afirmativa. Por isso mesmo, convém que a comunidade discuta e adote políticas – as mais diversas, desde que fecundas – de transferência de sua pesquisa para a sociedade, para que esta transmissão deixe de acontecer somente sob controle do mercado ou dos intermediários entre a comunidade e o público. Em suma, é desejável que a comunidade científica seja mais ativa na determinação do que vai passar para a sociedade.

  3. No tocante à pesquisa que já é feita para uma clientela ou mercado definido, sugere-se que seja reforçada. Em especial, convém se ressaltar a necessidade de que as empresas levem cada vez mais em conta os aspectos culturais (no sentido antropológico) de suas políticas de recursos humanos no interior da planta, e de relação com o mercado em geral, utilizando para tanto uma capacidade instalada, mas ainda ociosa, de pesquisa em ciências humanas. Muitas vezes, problemas que aparecem simplesmente como obstáculos ao aumento da produção ou à difusão do produto (bem ou serviço) na verdade têm sua explicação em aspectos culturais que não foram levados em conta, ao se pensar apenas na maximização econômica da produção. E com isso se anda em círculos, reinventando-se a roda; desperdiça-se muito dinheiro e tempo, para considerações genéricas e pouco eficientes (o que acontece sobretudo no nível da diretoria e assistência de diretoria de muitas empresas). Isso quando existem pesquisas, instrumental analítico e pessoal qualificado que podem ajudar de maneira racional e científica a elaborar estratégias para lidar com esses obstáculos, em vez de se fazer isso de maneira intuitiva, confusa e contraproducente. Na verdade, com isso se ampliará o alcance de pesquisas que por enquanto têm seu principal mercado nos setores estatais ou que assumem a perspectiva do público, mas que podem expandir-se para contribuir para o avanço econômico do setor privado, ao dar conta de aspectos que usualmente são ignorados. Seria conveniente, por parte do MCT, talvez em parceria com os ministérios econômicos, uma divulgação junto ao setor empresarial privado da importância dessa possível contribuição das ciências humanas.

  4. Já a difusão do conhecimento em Humanas na sociedade como um todo, na constituição de uma opinião pública democrática, é o ponto que merece maior detalhamento nesta secção. Aqui tratamos propriamente de público, mais que de mercado (que foi o alvo do item anterior). Contudo, o fato de se tratar de público não quer dizer que a relação seja direta, entre a comunidade científica de Humanas e ele. Ao contrário, tal relação tem uma série de intermediários, que são os meios de comunicação em geral, indo desde as redes de TV nacionais, passando pelos rádios e jornais, até chegar às editoras, e entre estas ainda se distinguem as mais comerciais e as mais acadêmicas. O problema é que atualmente essa difusão, embora tenha por mérito o de constituir uma opinião essencial para o desenvolvimento social e político do Brasil, se faz segundo os critérios desses intermediários. Se lembrarmos que estes últimos formam um mercado, veremos que o papel do mercado nesse item é ainda mais forte do que no anterior. Aqui se torna então necessário mudar o peso respectivo dos atores envolvidos. É desejável, primeiro, que a atuação profissional seja – com o perdão da redundância - mais profissionalizada. Muitas vezes ela sequer é remunerada, ou o é mal. Esse fator, contudo, é apenas decorrência de uma causa mais profunda: é que até o presente momento a transferência à sociedade dos resultados da pesquisa em Humanas não foi alvo específico de uma política, nem da comunidade científica nem das agências (e por isso insisti tanto neste ponto). Disso resulta que tal apropriação social da pesquisa se faz de maneira sobretudo diletante. Um século depois de Freud dizer que "não acredit[ava] mais na [sua] neurótica", e com isso iniciar a psicanálise17, a convicção da maioria esmagadora de nossa sociedade é que a contribuição dele ao conhecimento do ser humano se resume numa obsessão com a sexualidade. Isso é muito pouco, e conviria – para ressaltar este exemplo – que a comunidade psicanalítica pensasse como o seu conhecimento pode beneficiar a sociedade como um todo. A mesma questão cabe para as demais ciências humanas. Em síntese, o que se sugere é que se formulem projetos de transferência de seu conhecimento à sociedade, projetos que obviamente, numa sociedade democrática e numa economia de mercado, não podem ter caráter impositivo, mas podem constituir programas de contribuição das ciências à sociedade. Repito que aqui estamos lidando numa área que, nas ciências exatas e biológicas, seria a da divulgação, mas, no caso das humanas, se converte na da aplicação prática. O importante é que a aplicação prática das ciências humanas se faça de maneira mais consciente e, na medida do possível, mais deliberada.

Pesquisa de ponta.

Passamos agora à questão da pesquisa de ponta. Era importante começar pela caracterização das ciências humanas e, depois, passar à sua aplicação prática. Parecerá à primeira vista que, fazendo a aplicação preceder a pesquisa, invertemos a ordem normal dos fatores. Mas foi proposital. Era preciso insistir nas especificidades de Humanas e, sobretudo, naquilo que é causa de incompreensão e de equívocos a seu respeito, tanto por quem é de fora como por quem é da área. Era preciso, sobretudo, recusar o consenso vigente sobre as Humanas e sua aplicação prática. Tudo o que foi dito pressupõe as proposições iniciais sobre a relação diferenciada entre sujeito e objeto, nas Humanas, e o conceito de produção com que elas lidam.

Já observamos algumas peculiaridades da interdisciplinaridade em Humanas. O interdisciplinar não deve, nas Humanas nem em quaisquer ciências que sejam, ser entendido como algo que se faz preservando-se as próprias fronteiras. O cerne de sua importância está em uma linguagem de uma área permitir revolucionar outras. Assim sucedeu, no século XVII, que dá a matriz das atuais ciências exatas, quando um recurso duas vezes milenar de agrimensores e tabeliões – a geometria – se viu alçado ao papel de fornecedor de paradigmas para todo conhecimento que quisesse ser científico. Assim ocorreu, em nosso século, nas Humanas, quando a lingüística trouxe rigor às demais ciências, no auge do estruturalismo, e quando a antropologia transmitiu a preocupação com as significações como são vistas pelos diversos agentes sociais, revolucionando a percepção das relações humanas. O específico em Humanas é que a interdisciplinaridade se vê facilitada por usar-se a linguagem natural como veículo de comunicação científica. Tal facilidade deve ser explorada ao máximo. Um ponto importante é abrirem-se, sempre, espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seu lugar de origem, de modo que da interrogação recíproca entre linguagens e corpus possam resultar novas hipóteses e perspectivas, mesmo que boa parte destas malogre.

Dúvidas quanto à internacionalização.

Outro ponto a frisar, e no qual vou a contracorrente da doxa reinante, especialmente nas agências, que nisso seguem o modelo das ciências exatas e biológicas, é que a exigência de internacionalização da pesquisa não terá sido muito positiva para as Humanas. É óbvio que não tem sentido a pesquisa fechada num só país. Mas convém dizer com toda a clareza que parte da propalada internacionalização de nossa pesquisa, pelo menos em Humanas, não tem ido além da constituição de grupos ou indivíduos nacionais como franqueados de seus congêneres estrangeiros – o que não traz nenhum ganho maior para a qualidade da pesquisa que aqui se faz.

Antes disso, porém, e mais importante: as ciências humanas não têm, atualmente, de modo geral, centros de excelência mundiais. Não vivemos um período como o dos anos 60, em que o estruturalismo pontificava, ou como o dos anos 70, em que pensadores da estatura de Foucault ocupavam claramente uma posição da qual se irradiavam perspectivas inovadoras para as ciências humanas. Infelizmente – ou não – o presente momento é marcado pela falta de centros dos quais se irradiem propostas, conceituais, metodológicas ou outras, de forte impacto qualitativo18. Isso torna então mais absurdo ainda o modelo de internacionalização, que, mediante uma imitação pouco apropriada das ciências exatas e biológicas, e por forte recomendação das agências, se tenta aplicar às humanas. O que acaba acontecendo é, assim, uma associação subalterna de nossos pesquisadores a outros que não têm, necessariamente, uma liderança tão grande que os capacite a exercer esse papel dominante.

Daí, também, outra decorrência perversa. Como o imperativo da internacionalização é relativamente recente, e nossa língua desconhecida internacionalmente, os pesquisadores que se internacionalizam são simplesmente os que mostram empenho em fazê-lo. Isso pouco ou nada tem a ver com sua qualidade. Muitos seniores não o fazem, até porque se sentem, nesse caso, forçados a entrar num papel subalterno que sua biografia e bibliografia já não admitiriam. Ora, o efeito disso é muito deformador sobre a pesquisa dentro do País, bem como sobre as relações internacionais. O esquema da franquia é muito vantajoso para o pesquisador mau ou medíocre. Ele se torna representante nacional de um pesquisador estrangeiro, com quem troca convites e textos, sempre, obviamente, numa posição subordinada. Recursos públicos financiam visitas do pesquisador estrangeiro e viagens do nacional. E isso num contexto em que geralmente o pesquisador estrangeiro é de qualidade mediana, não mais que isso19.

Uma palavra sobre a nossa língua. Ela é desconhecida no exterior, e daí tem vindo a insistente recomendação de que publiquemos em inglês ou, pelo menos, em francês ou alemão. É preciso matizar essa sugestão. Em primeiro lugar, lidamos com a linguagem natural e com freqüência nosso texto tem elementos polissêmicos – eis uma das pontes entre as ciências humanas e as humanidades, assim entendidas sobretudo as artes e literaturas –, o que torna sua tradução difícil e problemática. O trabalho de converter em inglês um texto é assim mais difícil do que quando a linguagem científica é, já por ser formalizada, internacional por princípio. Há mais que isso, porém. Em segundo lugar, boa parte de nossas publicações no exterior acaba se dando em veículos confinados à produção sobre nosso país. Não necessariamente se difunde além disso. Precisamos definir estratégias que arrebentem este confinamento.

Recomendação para a pesquisa de ponta.

O quadro que assim desenho é preocupante. Mas acho que o preocupante não é o diagnóstico, mas o diagnosticado: o panorama da cooperação internacional num viés subalterno. É preciso, a contrario, frisar que a comunidade científica em humanas tem produzido bem em diversas áreas, uma das quais a – já mencionada – antropologia. O problemático é justamente aquilo que, ao ver das agências de fomento e de colegas bem intencionados mas pouco informados de outras áreas, deveria ser a solução – e, insisto, apenas cria ou agrava problemas. A solução pode ser encaminhada se, em vez de associações subalternas de cada pesquisador ou grupo nacional com um congênere estrangeiro, nos ocuparmos inicialmente em detectar questões novas na área de Humanas.

O ponto estratégico que nos facilita isso é justamente a ausência de centros internacionais de excelência. Não estamos necessariamente inferiorizados em relação à pesquisa que se dá em tal ou qual lugar. Por isso mesmo, não precisamos retomar questões lá colocadas, cuja relevância não é tão grande. Já recomendei isso, ao CNPq, e volto a recomendar: o fundamental é aumentar a interlocução entre os pesquisadores nacionais de ponta. Ela existe muito pouco. Não necessariamente aumentará em congressos da área ou em outros modos usuais de sociabilidade, pouco adequados a um aprofundamento de questões. É preciso detectar questões de ponta, suscitar em torno dela indagações, reunir grupos pequenos de pesquisadores de alta qualidade – aqui agregando seniores abertos à novidade e juniores inventivos – e a partir disso gerar conhecimento. Neste ponto, a contribuição do CNPq e do MCT poderia ser decisiva, em três etapas: 1) suscitando algumas questões, relevantes cientificamente e por sua possível aplicação prática; 2) financiando os encontros e 3) publicando os resultados em livros.

Sugiro já um tema, a meu ver até o presente pouquíssimo estudado20: o impacto das pesquisas sobre o genoma e as neurociências sobre a fronteira entre natureza e cultura. Ao longo dos séculos XIX e XX, uma fronteira bastante instável se constituiu, entre o domínio das ciências biológicas e o das humanas. Sempre houve escaramuças e tentativas de mudar o traçado das fronteiras. Contudo, o princípio das mesmas e sua localização genérica eram aceitos. Mas, com os estudos de ponta nas neurociências e o projeto genoma humano, está-se difundindo a idéia de que muito do que dependia da cultura e da educação – isto é, que era histórico, contextual e objeto de estudo das ciências humanas – pode estar já inscrito nos genes e ser trabalhado pelas ciências biológicas. Caso se confirme essa hipótese, que tem maciço apoio financeiro e forte apoio da mídia, as fronteiras serão modificadas em detrimento da cultura e das ciências humanas, e em favor da natureza e das ciências biológicas. Sofrerão, em particular, a antropologia e as várias psicologias, sobretudo, talvez, a psicanálise21.

Ora, é premente discutir esse cenário. Dificilmente se terá um consenso a respeito, e convém evitar reações apenas imperialistas (por parte dos pesquisadores do genoma e das neurociências) ou somente defensivas (do lado das ciências humanas). Mas é preciso suscitar esse debate, ou para reduzir o otimismo por vezes ingênuo de nossos colegas hoje de ponta, ou para questionar o sentido das ciências humanas no day after o genoma.

Outras discussões poderiam ocorrer sobre outros pontos que possam ter o sentido de fecundar a pesquisa. Em suma, o que sugiro é algo como a constituição, muito informal, até porque qualquer formalização contradiria o espírito do que se está recomendando, de um instituto de estudos avançados em humanas, de âmbito nacional. A renovação nas ciências está sendo brutal, no melhor sentido do termo, e isso requer que se procure suscitar o máximo de novas pesquisas, mas somente o faremos se aumentarmos o diálogo, em torno de pautas precisas, entre nossos melhores pesquisadores.

Para isso é primordial entender que a aplicação prática do conhecimento que geramos, em Humanas, não é externa ao próprio conhecimento gerado (como sucede nas exatas e biológicas), mas está no cerne dele mesmo. A aplicação dos resultados de uma pesquisa biológica, por exemplo, depende de questões que a própria biologia não pode examinar – a existência de mercados, de fatores de produção, de aceitação social, por exemplo; ora, esses pontos são objeto de conhecimento das ciências humanas (e deveria aumentar o papel dela nessa apropriação social, no caso pelo mercado, dos resultados de outras ciências). Mas, no caso das ciências humanas e sociais, como seu principal objeto de estudo é justamente o mundo humano, a transferência do conhecimento delas para a sociedade é tema de seu estudo. O que precisamos é enfatizar isso, e sair de uma postura defensiva para uma claramente afirmativa, em que fique bastante nítido que nossas disciplinas podem e devem discutir o social, contribuindo para sua melhoria.

 

Apêndice: sobre os estudos em torno da democracia.

É mais que tempo de encontrar questões que permitam articular a reflexão mais pura e mesmo descompromissada, com a sua aplicação prática. Isso vem sido praticado de várias formas, e projetos têm sido apoiados nessa direção. Darei um exemplo do que entendo por um possível PADCT de Humanas, em torno da democracia.

1) Cabe aqui uma reflexão teórica, filosófica mesmo: com que conceitos de democracia se lida? Uma dimensão histórica também entra em cena – como se constituiu a democracia moderna, o que a distingue da grega, que outras práticas democráticas existem, que não pertençam a essas duas tradições.

O avesso da democracia precisa ser estudado. O que são tirania e despotismo, conceitos que remontam aos gregos e reaparecem, com vigor, nos séculos XVI a XIX; ditadura, termo romano, que muda de sentido na modernidade; totalitarismo, conceito do século XX, que congrega as experiências fascista e stalinista. Também isso implica estudá-los não só teoricamente, mas no plano histórico. E, a par dessas formas veementemente anti-democráticas, há que levar em conta formas tenuemente avessas à democracia: autoritarismos, monarquias, democracias de fachada.

2) Devem ser realizados não só estudos teoréticos, em torno dos conceitos e da história mais dura dos mesmos, mas pesquisas de campo, investigações da ordem das ciências sociais, que permitam repertoriar as formas de autoritarismo – e inversamente, de emancipação democrática – vigentes no Brasil. Tratar-se-ia de considerar a) as formas de autoritarismo e de democracia no plano mais diretamente político (plano da ciência política), b) no da sociedade (sociologia), c) no de outras comunidades e grupos, como de gênero (talvez, objeto sobretudo da antropologia).

3) Finalmente, desse conjunto de estudos teóricos e empíricos se poderia chegar a um conjunto de aplicações práticas, por exemplo: a) projetos de organização democrática da sociedade, como cursos para administradores e mesmo políticos que estejam municiados dos últimos conhecimentos técnicos a respeito, a fim de gerar uma administração republicana (comprometida com o bem comum) e democrática (comprometida com o bem do povo); b) projetos de organização autônoma da sociedade e de seus grupos, levando portanto a questão da democracia e da república para além das instituições apenas políticas e constitucionais do Estado, para o da sociedade como um todo; c) projetos de educação democrática e republicana, a serem aplicados em escolas desde o 1o grau; d) publicação tanto de clássicos quanto de textos novos e inovadores.

Obviamente, este plano, que aqui delineio a título de um exemplo de projeto bastante abrangente e ao mesmo tempo preciso, tanto pode ser implantado mediante um esquema de indução suscitada (um board suscita temas e convida pesquisadores), quanto mediante um de projetos de balcão a serem examinados por um órgão isento (como os CAs do CNPq). O ideal é, evidentemente, que prevaleça a indução, mas sem eliminar o balcão.

São Paulo, 2 de novembro de 2000.

 

Notas

1 Não darei maior importância, aqui, à distinção entre ciências humanas e humanidades. Esta é difícil. As humanidades são um corpus antigo, revigorado na Renascença e que corresponde em certa medida aos estudos clássicos; tinham forte papel pedagógico, formando as pessoas com base num patrimônio cultural. Já as ciências humanas datam do século XIX e do XX, embora devam bastante a precursores e variem muito em seus critérios epistemológicos. Mas a distinção não pode ter por base elementos apenas históricos.
Em tese, diria que as humanidades se caracterizaram por não operar com a idéia de progresso e por darem menor importância ao referente que nas ciências recebe o nome de "realidade". Por isso, são humanidades as literaturas, as artes, a filosofia. Em nenhuma delas, o dernier cri abafa as vozes anteriores. Já nas ciências humanas, diversamente, existe uma evolução da ciência e aumenta a importância da "realidade".
Note-se que, com esta distinção, 1) deixei de lado a velha idéia de que as humanidades trariam lições de vida, tendo um papel pedagógico, e 2) incluí entre elas tanto uma disciplina voltada para o conhecimento (a filosofia) quanto outras, as artes e literaturas, cuja inclusão entre as disciplinas cognoscentes é menos óbvia.
Para simplificar, priorizarei o termo "ciências humanas" (ou "humanas"), para integrar todas as disciplinas de conhecimento, inclusive a filosofia, que têm o homem por objeto.
Na verdade, se considero difícil a distinção, é porque sustento que a diferença entre ciências humanas e humanidades é menor do que se pensa. A idéia de que nelas se modifica o sujeito, no ato mesmo de conhecer, é um traço mais visível nas humanidades, mas que se percebe também presente nas humanas. Por isso, excluir humanidades como artes e literatura deste campo pode fazer perder a especificidade das humanas. (Cf. meu projeto de curso de graduação interdisciplinar em Humanidades, elaborado a pedido da Pró-Reitoria de Graduação da USP).

2 Evidentemente, desde a teoria da relatividade e o destaque dado pela física do século XX à posição do observador, diminuiu a distância, neste ponto, entre as humanas e algumas outras ciências.

3 Os grandes exemplos podem ser os projetos de Durkheim, querendo tratar os fenômenos sociais como coisas; de Freud, no fim da vida, querendo chegar às condições físico-químicas da psique; de Lévi-Strauss, formalizando as relações sociais mediante intenso uso da matemática. Não nego que estas tentativas tenham alcançado sucesso – embora menor no caso de Freud. Apenas, assinalo o caráter local desse sucesso, que não pode ser generalizado para as ciências humanas como um todo.

4 Recentemente fiz esta experiência com a Psicologia de massas e a análise do eu, de Freud (1921). Este texto, um daqueles em que Freud se debruça sobre a sociedade, tem hoje seu mérito mais no fato de existir do que nos seus conteúdos, em boa parte superados pela antropologia mais recente.

5 Cf. a frase clássica da sociologia: só pensa algo sociologicamente quem quer algo socialmente. É a posição de agente na sociedade que permite construir um saber sobre a mesma.

6 Isto é, aos olhos dos que vêem a linguagem como comunicação. Hobbes, em meados do século XVI, distinguia na linguagem dois usos principais, o seu como comunicação, passível de polissemia, de equívocos e de perda de sentido, e o seu como veículo da ciência, rigoroso, mas que dificulta a comunicação. Qualquer teórico da linguagem sabe, hoje, que a linguagem – mesmo natural – está longe de ser um veículo para uma comunicação transparente.

7 A valorização pouco matizada das publicações com referees acaba levando, também fora do Brasil, a injustiças. Nos Estados Unidos, por exemplo, em certos concursos se dá tanto peso a artigos publicados depois de arbitragem cega que não são levados em conta artigos para os mais importantes periódicos quando tenham resultado de convite. Ora, é óbvio que o convite se dirige a pesquisadores de destaque, que assim acabam discriminados. A revista Lingua Franca discutiu este assunto em 1999.

8 Georges Duby, talvez o maior medievalista dos últimos tempos, comenta em seu Guilherme Marechal que a história das mentalidades, que ele praticava, era essencialmente a aplicação da etnologia à história. – Por sinal, este livro, da mais alta qualidade, foi escrito a partir de uma série de emissões na rádio France Culture: veja-se como é difícil separar, nas humanas, a melhor pesquisa e a divulgação.

9 Do qual fui membro, de agosto de 1993 a agosto de 1997, como representante da comunidade científica.

10 Exemplo de um equívoco muito comum no julgamento do que cabe à pesquisa universitária e do que pertence à ação política: recentemente ouvi um líder estudantil acusar a USP de gastar mais com pesquisa em cosméticos do que com a cura da malária. Não sei se isso é verdade, mas – aceitando a discussão em tese – com freqüência a universidade e a pesquisa já fizeram o que podiam fazer (no caso, a pesquisa para a cura da malária). O que falta é a vontade política, que deve ser do Estado e da sociedade, no sentido de implementar políticas contra essa ou outra doença. Não falta pesquisa. Falta política.
Mas poderíamos dizer que aqui, justamente, podem entrar as ciências humanas. É possível que já se saiba tudo sobre a malária, no plano biológico. Sabe-se, porém, como é a vivência dos seus doentes? E sobretudo: sabe-se por que não é priorizada a sua erradicação? (Notem que estou sempre argumentando em tese, mas sirva o exemplo para assinalar a importância de pesquisas, em Humanas, sobre as resistências sociais, políticas e mesmo estatais àquelas medidas que soam como absolutamente necessárias de outros pontos de vista. Estudar isso pode ser muito útil para a sociedade brasileira).
Exemplo de outro tema de estudo: que resistências há, na sociedade brasileira, a uma cultura da ciência e tecnologia?

11 A Escola de Governo paulista é iniciativa de Fabio Konder Comparato e outros, e pertence a uma fundação cujos principais membros são de linhas políticas distintas. A cearense é de uma fundação de estudos ligada majoritariamente ao PSDB. De modo geral, são entidades que se empenham em não ser partidárias, mas – por seu empenho pela cidadania – obviamente se voltam contra o legado da ditadura, o que as aproxima do centro e da esquerda.

12 Dois outros exemplos, para não assoberbar o texto:
1) Em 1994, a cidade de São Paulo conheceu o episódio da Escola de Base, uma creche na qual crianças de dois ou três anos acusaram seus professores e diretores de abusarem sexualmente delas. A opinião pública crucificou os acusados que, descobriu-se depois, eram inocentes, mas tiveram suas vidas pessoais e econômicas devastadas de maneira irreversível. É chocante que ninguém, da profissão psicanalítica, tenha vindo a público lembrar que o estalo que inaugura a psicanálise se deu quando Freud descobriu que crianças são perversos polimorfos, isto é, têm fantasias sexuais. Longe de serem inocentes, à maneira de Rousseau, elas fantasiam com sexo. Este é um exemplo pelo negativo: se a profissão psicanalítica tivesse uma preocupação sistemática em transmitir à sociedade os resultados de suas pesquisas, males teriam sido evitados.
2) O outro exemplo é positivo: estudos têm sido feitos sobre a formação dos profissionais que vão para a magistratura, o Ministério Público, as polícias, do ponto de vista de seu conhecimento e endosso aos direitos humanos. As revelações de tais pesquisas são, claro, decepcionantes, mas por isso mesmo é de se esperar que contribuam para melhorar a formação de tais operadores do direito e da segurança.

13 Por exemplo, a maior parte da contribuição da ciência política à sociedade lê-se nas páginas de opinião e nos cadernos de Brasil; o que a sociologia tem a dizer muitas vezes aparece nos cadernos Cotidiano, Cidades ou Geral; e o que a antropologia traz de pesquisas se vê sobretudo nos suplementos culturais. Esta distinção é significativa, e poderia ser aprofundada. Tentemos:
A ciência política é vista sobretudo como a que permite entender o funcionamento do Estado e, em especial, as opções do eleitorado. A sociologia contribuiria para uma organização melhor do social, mas de um social que é mais alvo de ações da administração pública ou de ONGs beneméritas do que compreendido em sua dimensão política (por isso, não está no caderno Brasil). E finalmente as contribuições da antropologia à compreensão da sociedade não aparecem nem no plano das grandes opções políticas nacionais (caderno Brasil), nem no da ação sobre a sociedade (Cidades, Geral, Cotidiano), mas no de sua inovação enquanto ciência social, que portanto encontra lugar nos suplementos culturais. Dificilmente se pede a um antropólogo sua opinião sobre a política brasileira. As duas outras ciências sociais são valorizadas por seus efeitos práticos, enquanto a antropologia o é em sua dimensão teórica.
Análise equivalente poderia ser realizada no tocante a outras ciências e disciplinas. Por exemplo, a psicanálise também aparece como disciplina, nos cadernos culturais, e raramente como instrumento de conhecimento do social – e isso embora alguns psicanalistas venham, desde anos, afiando sua leitura sobre o País. É raríssimo ela surgir nas páginas de opinião. Já a filosofia encontra lugar nestas últimas e também nos cadernos culturais.

14 É curioso que esse termo haverá de despertar reações tão opostas nos leitores deste texto. Parte deles, sobretudo os ligados à administração de C&T e ao mundo empresarial, vê no mercado um fator importante de solução dos problemas tanto da área quanto do País. Outra parte, porém, sobretudo em meio aos pesquisadores de humanas, opõe-se à própria palavra.

15 Refiro-me à operação 4, no Planejamento Estratégico promovido pelo presidente do CNPq, dr. José Galizia Tundisi.

16 Nas concessões mais recentes de estradas e de saneamento básico, a idéia inicial do Estado – que era obter o máximo preço no leilão, mas sem se importar com as tarifas que depois serão cobradas do usuário – está sendo substituída por outra, que é a de cobrar pouco ou nada do concessionário, desde que este repasse as economias assim geradas para o usuário final.

17 Depois de outras pesquisas, como com a cocaína, Freud percebe que a dor psicológica está ligada à sexualidade e, em especial, a traumas sofridos na infância. Vale-se da hipnose, por exemplo, para despertar a lembrança causadora da dor e, tratando-a, vencer a neurose. Contudo, em fins da década de 1890 ele escreve a Fliess que não acredita mais que esses traumas tenham de fato ocorrido. Terão sido fruto de fantasias sexuais infantis. É a descoberta da sexualidade infantil. Curiosamente, a opinião pública conserva da psicanálise uma imagem justamente ligada ao que vem antes da psicanálise, isto é, as idéias de trauma, de abuso sexual, de sexualidade imposta.

18 Alguns lêem esse fenômeno como sendo o do fim da grande teoria em ciências humanas. Teriam desaparecido as grandes teorias, como a de Marx, a de Weber e outras, em favor de uma pulverização da pesquisa em monografias, ou em micro-teorias. Discordo dessa avaliação. Foucault teve justamente papel importante na substituição da grande teoria pelo que ele chamou de "microfísica" do poder – e no entanto ele representa talvez a última excelência de nível mundial que tivemos em Humanas. O que interessa aqui discutir não é a simpatia que tenhamos por leituras totalizantes ou microfísicas da sociedade, mas sim a fecundidade que umas ou outras possam despertar na pesquisa de ponta. (Como dizia Goethe, a marca da verdade é ser ela fecunda). E inexiste, hoje, um centro reconhecido de tal fecundidade, embora ela exista em inúmeras pesquisas particulares.

19 Já participei de um congresso no qual os convidados estrangeiros interagiam somente uns com os outros, comentando encontros futuros e passados entre si, ao passo que os brasileiros multiplicavam as deferências para com eles: imagino que assim se passassem as coisas na África colonial.

20 Tanto quanto conheço, nada foi desenvolvido, até hoje, a respeito. Daí que tenhamos boas chances de inovar mundialmente.

21 Tenho suscitado esta questão em congressos de psicanalistas. A reação deles ao "coquetel da felicidade", pelo menos supostamente masculina (Xenical, Prozac e Viagra) consiste em negar que o objetivo da psicanálise seja tornar as pessoas alegres ou, mesmo, felizes. O que está em jogo é a questão do sujeito, isto é, dizendo-o em linguagem leiga, como fazer que a pessoa enfeixe em suas mãos o seu destino (em linguagem técnica, é reforçar o ego como instância que administra o próprio ego, o id, o superego e a realidade externa). Mas, de qualquer forma, pode cair a demanda das terapias psicológicas, e quem sabe da própria análise.