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O

Artigo publicado em Portugal, revista O Mundo em Português, número 41, de fevereiro de 2003. Ver o site .

 

Pensar o Brasil I

É notável como a imprensa brasileira abre espaço ao mundo acadêmico, em especial nos seus principais veículos, a saber, dois de São Paulo (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo), dois do Rio de Janeiro (O Globo e Jornal do Brasil) e um de Porto Alegre (Zero Hora). Constantemente ela convida intelectuais a opinar sobre a sociedade e seus rumos. Mas o recorte não é homogêneo. Se tomarmos as três ciências sociais, veremos que os cientistas políticos têm o quase monopólio do caderno principal dos jornais, chame-se ele Brasil ou Política, que a sociologia domina no caderno de Cotidiano, Cidades ou Geral, e que a antropologia ocupa um discreto lugar bem atrás da crítica literária e mesmo da filosofia nos curtos suplementos semanais de Idéias ou Cultura.

A ciência política acompanha de bem perto a discussão imediata (partidos, intenções de voto, prospectiva de alguns meses), o que faz dela a interlocutora por excelência dos jornalistas bem formados mas também, às vezes, estabelece entre ela e a imprensa uma curiosa relação, na qual não se sabe mais quem é o duplo de quem. O aporte positivo da ciência política é a insistência no convívio, na não-demonização do adversário, na alternância embora esta seja mais fácil de dizer que de praticar, porque persiste, na imprensa e mesmo na ciência política não petista, que é majoritária, a obsessão de ameaçar o país com a catástrofe caso o PT ganhe a presidência da República. A ciência política tem sido entre nós, até no nome, a ciência social que mais insiste em seu caráter cientifico, e talvez isso se deva justamente a seu incômodo com sua fronteira delicada com o jornalismo, com a opinião, fronteira essa necessariamente fluida desde que se trate de valores políticos.

A sociologia tem sido utilíssima para discutir a violência e as cidades, dois temas estreitamente ligados no Brasil, já que crescem sem cessar as reclamações relativas à segurança. Seu aporte positivo tem sido explicar as causas sociais da violência e tentar pôr-lhes termo, defendendo os direitos humanos. Mas é um combate quase inglório, difícil, porque cresce o medo e com ele o ódio aos "bandidos", a tal ponto que mas talvez isso seja bom pela primeira vez o PT muda sua ênfase, da defesa dos direitos humanos dos presos, para a idéia mais abrangente de uma política de segurança. Esta se distinguiria, porém, da de direita (que tem aí seu Leitmotiv) porque substituiria a violência policial por uma polícia de base científica, informatizada, com parcerias na sociedade. Se a ênfase da ciência política está mais perto do governista PSDB até pelo peso que tem, na disciplina, o presidente da República , a da sociologia se equilibra entre o partido presidencial e o PT.

Finalmente, a antropologia olha a sociedade mais de longe. Deixou de tratar quase só de índios, havendo cada vez mais antropólogos brasileiros a examinar sociedades complexas. Mas essa distância a torna menos interessante para a imprensa. Daí que ela apareça, nos jornais, em sua posição mais acadêmica mas daí, também que conserve uma postura crítica mais acentuada. Tenho sugerido a meus alunos que procurem embaralhar as ciências sociais, lendo o primeiro caderno dos jornais (política brasileira) com óculos de antropólogo, um pouco como os persas de Montesquieu miravam a França do século XVIII. É, pelo menos, instigante. O problema, porém, é que pouco da capacidade da antropologia para fazer refletir tem chegado à esfera pública, à imprensa.

Há um certo divisor de águas na discussão sobre a sociedade brasileira, hoje. Os anos 1960 conheceram um avanço técnico no estudo sobre o Brasil, que dava frutos a trabalhos iniciados já na década de 1940, substituindo o impressionismo das análises ensaísticas clássicas (que incluíam obras notáveis, como as de Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, mas também livros que, apesar de seu brilho, resistiram mal ao tempo, como Retrato do Brasil, de Paulo Prado) por pesquisas de campo combinadas com a melhor bibliografia internacional. Florestan Fernandes é o destaque dessa geração. Mas, desde o final dos anos 80, a pergunta sobre a identidade do país favoreceu um novo ensaísmo. A demanda social por ele é o que permite unir, por exemplo, um antropólogo de sucesso como Roberto DaMatta e um cronista popular como Luis Fernando Veríssimo que, cada um a seu modo, procuram responder a essa pergunta fazendo uso da observação, sim, mas com forte intuição, ainda que treinada. Episódios da vida cotidiana passam a ter uma carga significativa importante, episódios que não são passíveis de mensuração ou de uma metodologia científica como a da ciência política ou da sociologia.

Essas duas formas de trabalho talvez correspondam a interesses em dois campos distintos de objetos. A ciência social consolidada na academe dos anos 60 lidou com objetos grandes e mais aceitos, como a estratificação social, as instituições políticas e a cultura indígena. Não cabe contestar esses temas. Eles continuam a concentrar a maior parte dos estudos hoje conduzidos no país. Mas, quando se dá atenção ao anedótico, ao fragmentário, ao exemplar, não só os critérios de cientificidade mudam (destaca-se a intuição, em prejuízo da demonstração), como também se realçam objetos menos usuais. Um desses enfoques é o dos costumes.

Os costumes são tema antigo, e respeitável, das ciências humanas. Durkheim celebrou em Montesquieu o fundador das ciências do homem; ora, foi Montesquieu quem articulou política, sociedade e costumes. Os modos de se relacionarem as pessoas não são neutros ou inocentes, ligam-se a uma política. Mas a ciência social de meados do século XX diminuiu sua atenção a eles. É recente sua reabilitação. Obras como as de Norbert Elias só tiveram êxito tardiamente. Ora, temas como o amor são mais bem examinados dessa perspectiva do que da dos esquemas macro. E também favorecem o ensaísmo.

Isso coloca alguns problemas. O ensaísmo tem tradição no Brasil, mas nem sempre respeitada. Se nunca empalideceu a reputação acadêmica de Sergio Buarque, Gilberto Freyre foi bastante atacado, até que, recentemente e talvez por um parentesco de seu trabalho com a história das mentalidades, readquiriu respeito. Mas ficam, de qualquer forma, duas linhas: uma macro, mais voltada para os grandes objetos, - outra mais micro, mais intuitiva. Evidentemente elas se combinam de vários modos. Contudo, há um confronto aqui. Dele faz parte, também, a presença cada vez maior de uma leitura literária dos fenômenos sociais e históricos. Essa passagem da análise do discurso, sob todas as suas formas, para o que antes era político, ou seja, de procedimentos que se confinavam nas humanidades e mesmo no beletrismo para as ciências sociais e humanas em geral, não se dá sem algum desconforto. Mas tem ocorrido.

***

Concluo estas notas comentando uma novidade em nosso país, que é o crescente interesse da filosofia pela sociedade brasileira. Houve, nos anos 50 e começos dos 60, um empenho de filósofos, sobretudo Álvaro Vieira Pinto, nos quadros do antigo ISEB, por compreender e transformar a sociedade nacional. Contudo, ficou um corte entre eles e a maior parte dos filósofos que se destacaram nas últimas décadas. A melhor formação que houve na área, dos anos 60 para cá, foi bastante técnica, centrada na história da filosofia. Isso não impediu alguns pensadores de intervirem na cena política brasileira, mas geralmente pela divulgação de idéias ou pregação de opiniões, ainda que abalizadas. A novidade talvez esteja na publicação de pelo menos quatro livros de filosofia tratando, especificamente, do Brasil. Nenhum deles pretende ser apenas difusão ou opinião.

O primeiro foi, em 1993, Órfãos de Utopia a melancolia da esquerda (Editora da Universidade, ), de Ernildo Stein, professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Pontifícia Universidade Católica do mesmo estado, conhecedor de Heidegger e psicanalista. O título é claríssimo: Stein quer entender como a esquerda elabora o luto por sua derrota. Procura compreender como os indivíduos constroem sua busca da utopia e, quando esta falece, lutam com a melancolia. A aplicação das teorias filosóficas à realidade, proposta quase sem mediações, soçobrou ao longo do século XX e, diante de seu fracasso, muitos se voltam para a mania, exaltando sem limites a vitoriosa economia de mercado, ou então juntam melancolicamente as ruínas do socialismo, negando-lhe o fim. O uso da psicanálise é evidente, e nem essa obra nem as seguintes se circunscrevem ao Brasil.

Quase ao mesmo tempo saíram os dois livros que se seguem. Marilena Chauí, professora da USP e estudiosa de Espinosa bem como, nos anos mais recentes, da democracia, publicou em 2000 Brasil: mito fundador e sociedade autoritária (pela Fundação Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores, ao qual a autora é vinculada, ). Uma análise da bandeira brasileira ilustra seu ponto de vista: enquanto a francesa ou a norte-americana expressam a história de seu país e suas revoluções, a brasileira evoca a natureza: o verde das matas (que o hino nacional diz serem mais verdes que as estrangeiras), o amarelo do ouro. (Penso, porém, que as coisas se complicam no centro da bandeira, onde estão as estrelas, e que inicialmente retratava o céu sobre o Rio de Janeiro na noite da proclamação da República. Isso é astronomia, é natureza ou é história? A resposta não é simples). O Brasil, assim, construirá um mito fundador em torno da natureza e da providência divina. A natureza será constantemente exaltada, bem como o favor de Deus, talvez em sinal da importância das relações de favor e clientelismo no País. Chauí analisa esse mito remetendo-o ao milenarismo, ao pensamento medieval, e lembrando o que diz Espinosa sobre o teológico-político.

Também em 2000 saiu meu livro A sociedade contra o social o alto custo da vida pública no Brasil (Companhia das Letras, ). O título se refere ao freqüente uso, no país, de "o social" para designar o mundo dos carentes, e "a sociedade" o dos proprietários. A partir de algumas análises concretas do romance Iracema, de José de Alencar, de algumas novelas de TV, do curioso nome e iconografia de nossa moeda (que se chama, desde 1994, "real") procuro discutir o que barra a ação política no Brasil. Temos aqui uma forte convicção ética, ao mesmo tempo que a crença de que o mundo público não é moral. Ora, modernamente a política surgiu emancipando-se da moral, de duas formas distintas, que chamo de abertura Maquiavel (a ação deliberada do príncipe, que procura ter a máxima virtù) e abertura Mandeville (a idéia de uma mão invisível, que age a despeito da consciência de qualquer um). Maquiavel abre caminho para o estadista, Mandeville para o mercado. As duas aberturas permitem jogar razoavelmente o xadrez da modernidade. Mas como praticá-lo se suspeitamos de ambas? Como agir política e eticamente, numa sociedade em que convivem (mal) corrupção e convicções éticas mal distinguidas da religião?

O livro mais recente dessa safra é de Luiz Sergio Coelho de Sampaio, Filosofia da Cultura Brasil: luxo ou originalidade (Editora Ágora da Ilha, 2002, ). Pensador independente, Sampaio propõe uma nova teoria lógica, da qual parte para repensar a modernidade, que não é mais um telos definitivo do homem, mas algo que pode ser transcendido. E aí entra a esperança para o Brasil, que não precisa ingressar no que já existe aliás, essa é uma preocupação que ele reparte com os outros autores ou seja, no luxo do consumismo global. Como tantos outros, Sampaio fala do dualismo brasileiro, mas em vez de identificar a parte não-moderna do país com o atraso entende por ela a recusa à modernidade, um modo passível de insinuar o melhor porvir. O Brasil não teria uma história de seguidos fracassos, mas uma epopéia rumo à criação de uma cultura original.

Essas obras infelizmente redigidas por autores que trabalharam e trabalham em separado, sem constituir uma comunidade de tema trazem riscos, inevitáveis quando se articula a teoria mais abstrata, filosófica, com a análise de uma sociedade ou um tempo. Mas isso não é nada raro na França ou nos Estados Unidos; no Brasil é que é novo. A originalidade na filosofia política tem vindo de enfrentar pontos às vezes tópicos, que a vida social suscita, e não de reelaborar teorias já existentes. O tempo dirá se essas iniciativas frutificarão ou não.